Rodrigo Nunes

O regresso de Carlos Gomes Júnior, ou o início do fim do “Jomavismo”

O regresso de Carlos Gomes Júnior à Guiné-Bissau, previsto para acontecer a 18 de Janeiro próximo, é uma boa notícia para o país. Mas é uma péssima conclusão para os objectivos políticos do Presidente da República José Mário Vaz.

Para a Guiné-Bissau, o regresso de Carlos Gomes Júnior marca o fim de um dos períodos mais conturbados da sua história recente, que vai das mortes do então CEMGFA Tagme Na Waie, do presidente Nino Vieira e dos ex-ministros Hélder Proença e Baciro Dabó, até ao Golpe de Estado de 2012 liderado pelo CEMGFA António Indjai.

De certa forma, pode dizer-se que o período de transição após o Golpe de Estado não terminou ainda. Apesar da acalmia militar, o sector político viu-se órfão de liderança como prova a crise política em que a Guiné-Bissau vive há mais de dois anos.

Mas entre todos os actores políticos guineenses, será o actual Presidente da República quem terá mais a perder com o regresso de Carlos Gomes Júnior.

José Mário Vaz é o único titular de cargo público na Guiné-Bissau que está legitimado nas urnas. Ao longo dos seus três anos de mandato, o Presidente da República impôs um cunho muito pessoal à actividade política no país, aproveitando os interesses dos aliados e dos próprios opositores para ir, habilmente, construindo a sua estrutura de poder.

Hoje, José Mário Vaz tem nas suas mãos quase todo o país. Controla os militares, através do CEMGFA Biague NanTam. Controla as forças de segurança, através do seu ministro do interior, Botche Candé. Controla agora os serviços secretos através do seu primo, o recém-nomeado Alfredo Vaz. Controla o Governo, através de Botche Candé e do Ministro das Finanças Aladje Fadia, perante a completa indiferença e até aparente concordância do Primeiro Ministro Umaro Sissoko. Controla o andamento da justiça, através do Procurador Geral da República. E sobretudo controla, através do Grupo dos 15, que a Assembleia Nacional Popular, o órgão que deveria controlar a acção do Governo e em última instância a actuação do próprio Presidente, não controla nada e lhe deixa a si, José Mário Vaz, mãos livres para continuar a tentar controlar o que agora lhe falta: o PAIGC.

Já Carlos Gomes Júnior nunca foi de se deixar controlar, e José Mário Vaz, que foi seu ministro das finanças, sabe disso melhor que ninguém. Carlos Gomes Júnior tem ambições políticas e o seu regresso no início de 2018, não é inocente.

Carlos Gomes Júnior chega a tempo de recuperar as bases de apoio que tem no PAIGC, muitas delas que se mantiveram em silêncio até agora, ou que têm apoiado até agora o “Jomavismo”, mas também em várias outras forças políticas. Mais: Carlos Gomes Júnior manteve-se fora de toda a crise política no país, que só se agravou desde a sua saída. Ou seja, a sua imagem pública junto da população em nada sofreu, pelo contrário, beneficiou e pode ser visto hoje como o “Salvador da Pátria” guineense.

As eleições presidenciais na Guiné-Bissau, a realizarem-se em 2019, deixam a Carlos Gomes Júnior tempo suficiente para também ele, criar as necessárias alianças políticas para fortalecer a sua candidatura presidencial. Seja com o apoio do PAIGC de Domingos Simões Pereira, seja com o apoio apenas dos seus incondicionais, muitos deles no Grupo dos 15. Carlos Gomes Júnior poderá escolher qual a ala que lhe dará mais hipóteses de cumprir o seu destino de vencer as presidenciais.

A José Mário Vaz, e ao seu “jomavismo”, depois do regresso de “Cadogo” ficarão as sobras e a eventual glória de ter sido o primeiro presidente a cumprir o seu mandato até ao fim na Guiné-Bissau. Ou não.

 

Rodrigo Nunes, politólogo angolano, em Dakar

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