Rodrigo Nunes

Guiné-Bissau: As “guerras” e as casernas do General Sissoko

Ninguém tem dúvidas de que Umaro Sissoko é um excelente Ministro dos Negócios Estrangeiros em qualquer parte do mundo. Já sobre as suas capacidades para ser Primeiro Ministro da Guiné Bissau, as dúvidas crescem.

Em defesa de Sissoko é necessário reconhecer que este não é o seu Governo. Tudo lhe foi imposto, e por todos. Pelo Grupo dos 15, pelo PRS e pelo próprio Presidente da República José Mário Vaz. Ao aceitar liderar esta “manta de retalhos” governamental, Sissoko confirmou a sua imensa ambição.

Sissoko é o oposto da estratégia “mon na lama” de José Mário Vaz. O Presidente quer alguém de apresente resultados, que faça, que construa, que alimente. Sissoko prefere as viagens ao estrangeiro em jactos privados, as fotografias com presidentes mediáticos de outros países, as poses forçadas nas reuniões de conselho de ministros que revelam uma liderança enfraquecida, o lançar ordens e avisos sem qualquer consequência prática. Foi assim com a ameaça de exílio para os Bijagós das crianças que mendigam nas ruas, foi assim com a ameaça de detenção a quem insulta os titulares de órgãos de soberania (Nuno Na Biam já foi detido?), foi assim com a humilhante deslocação à sede do PAIGC depois do assalto de 18 de outubro, de onde foi expulso pelos militantes do partido perante a passividade das forças de segurança no local, sem saberem o que fazer.

O culto da imagem de Sissoko começa na sua patente militar. Sissoko diz que é General. Sissoko era um mero soldado durante o 7 de Junho de 1998. Como soldado avisado, decidiu abandonar o país em convulsão para iniciar o seu trajecto pessoal de se tornar homem de mão de vários ditadores por essa África fora. Khadafi, Nguesso, Omar Bashir. Patrões pouco recomendáveis mas de bolsos cheios e com poucas preocupações face ao estatuto de desertor aplicado a Sissoko pelo EMGFA após a sua saída da Guiné-Bissau.

Tornando-se útil para estes ditadores, Sissoko tornou-se útil para a Guiné-Bissau. Para os sucessivos governantes guineenses, Sissoko era a ponte para chegar aos líderes africanos. Deixou de ser desertor e foi reintegrado nas FARP. Daí para a frente, foi subindo na hierarquia militar, apesar de não lhe ser conhecida qualquer frequência dos quartéis militares guineenses, até chegar a coronel depois do Golpe de Estado de 2012.

Mas de repente, Sissoko já não é só coronel, é um Primeiro Ministro que se diz General. Todos aceitam esta promoção, mas todos também têm dúvidas sobre quem é Sissoko na realidade.

À boca pequena os quartéis questionam: tem o Estado Maior General das Forças Armadas provas da patente de General de Sissoko? Se tem, como é que alguém que fez a sua vida fora do país, fora dos quartéis, chegou a General? E se não tem as provas, porque aceitou o CEMGFA Biague NanTam, sem contestar, esta usurpação do bom nome dos militares guineenses? E se Biague contestou, porque aceitou o Presidente José Mário Vaz nomear como Primeiro Ministro um indivíduo contestado formalmente pelas FARP?

Sissoko ser ou não General é o menor dos problemas da Guiné-Bissau. Três anos de crise política, parlamento bloqueado, cinco governos, quatro primeiros ministros. Um único presidente.

Rodrigo Nunes

Politólogo angolano, em Dakar

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