Um estudo publicado na revista científica Neurology associa o consumo elevado de seis adoçantes de baixas ou nenhumas calorias a um declínio mais rápido da memória e das capacidades cognitivas. A investigação, que acompanhou 12.772 adultos no Brasil durante cerca de oito anos, concluiu que os participantes com maior consumo destas substâncias apresentaram uma deterioração cognitiva 62% mais rápida do que aqueles que consumiam menores quantidades. Os resultados foram divulgados a 29 de Outubro de 2026 e não demonstram uma relação directa de causa e efeito.
A investigação analisou sete adoçantes utilizados frequentemente em alimentos e bebidas: aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol, sorbitol e tagatose. Estas substâncias estão presentes em produtos como refrigerantes sem açúcar, bebidas aromatizadas, bebidas energéticas, iogurtes e sobremesas de baixas calorias. Os participantes com maior consumo ingeriam, em média, 191 miligramas por dia, enquanto os que apresentavam menor consumo ingeriam cerca de 20 miligramas diários. O consumo intermédio foi igualmente associado a um declínio cognitivo mais rápido, de 35% face ao grupo de menor consumo.
Segundo os investigadores, a diferença observada no grupo de maior consumo correspondeu a cerca de 1,6 anos adicionais de envelhecimento cognitivo ao longo do período analisado. Esta estimativa baseia-se na evolução do desempenho em testes de memória, linguagem, fluência verbal e velocidade de processamento de informação, não representando uma medição directa do envelhecimento biológico do cérebro. A análise individual identificou associações com seis dos sete adoçantes estudados: aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, sorbitol e xilitol. No caso da tagatose, não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa com o declínio cognitivo.
A relação foi mais acentuada entre os adultos com menos de 60 anos e as pessoas com diabetes. Nos participantes com mais de 60 anos, os investigadores não encontraram uma associação semelhante. Claudia Kimie Suemoto, da Universidade de São Paulo e autora do estudo, salientou que os adoçantes de baixas ou nenhumas calorias são frequentemente considerados alternativas saudáveis ao açúcar, mas que os resultados justificam uma investigação mais aprofundada sobre os seus possíveis efeitos a longo prazo na saúde cerebral.
Os autores sublinham, contudo, que o estudo apresenta limitações importantes. Os hábitos alimentares foram relatados pelos próprios participantes, podendo existir imprecisões na estimativa do consumo, e o desenho observacional não permite concluir que os adoçantes provoquem directamente perda de memória ou danos cerebrais. Outros factores poderão contribuir para os resultados, apesar de terem sido consideradas variáveis como a idade, o sexo, a hipertensão e as doenças cardiovasculares. Os investigadores defendem, por isso, a realização de novos estudos para confirmar as associações e esclarecer os efeitos de diferentes substitutos do açúcar, sem que os resultados actuais justifiquem concluir que todas estas substâncias causam deterioração cognitiva.
