Medicamentos semelhantes ao Ozempic e ao Wegovy podem estar a revelar um mecanismo cerebral que influencia não apenas o apetite, mas também o desejo por álcool e outras substâncias, segundo uma análise publicada pelo The Conversation.
A investigação aponta para o septo lateral, uma região do cérebro que poderá funcionar como uma espécie de ponto de ligação entre memórias, contexto e experiências de recompensa.
Os chamados agonistas do GLP-1, utilizados sobretudo no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, imitam uma hormona que aumenta a saciedade e ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue. Estudos em humanos indicam também que estes medicamentos podem reduzir o consumo de álcool, enquanto experiências em animais sugerem efeitos semelhantes relativamente a substâncias como cocaína, anfetaminas, opiáceos e nicotina.
Durante décadas, a investigação sobre o sistema de recompensa concentrou-se sobretudo em regiões como a área tegmental ventral e o núcleo accumbens, associadas à dopamina. No entanto, estas estruturas apresentam uma baixa densidade de recetores de GLP-1. Os investigadores passaram, por isso, a procurar outras regiões que possam explicar os efeitos destes medicamentos sobre os comportamentos de procura de recompensa.
O septo lateral ganhou particular interesse por receber informação do hipocampo, região envolvida na formação de memórias e na representação de lugares e acontecimentos. Estudos indicam que células do septo lateral respondem a recompensas, permitindo associar informações como onde e quando uma experiência ocorreu ao seu valor positivo. A região comunica depois com áreas cerebrais envolvidas na produção de dopamina e possui uma elevada concentração de recetores de GLP-1.
Experiências recentes reforçam esta hipótese: a ativação dos recetores de GLP-1 no septo lateral reduziu o consumo de alimentos em ratos e, num estudo publicado este ano, também o consumo de álcool. Os investigadores sublinham, contudo, que estes resultados ainda não significam que os medicamentos para a obesidade sejam tratamentos aprovados para as dependências.
A descoberta poderá, ainda assim, ajudar a compreender melhor os mecanismos do desejo e abrir caminho a novas estratégias terapêuticas para a obesidade e os transtornos relacionados com o consumo de substâncias.
