A ideia de que doses elevadas de vitamina C podem prevenir constipações foi popularizada há mais de 50 anos pelo químico norte-americano Linus Pauling, vencedor de dois Prémios Nobel. No entanto, décadas de investigação científica indicam que a vitamina C não reduz de forma significativa o risco de uma pessoa saudável contrair uma constipação. A suplementação regular pode, ainda assim, produzir uma redução modesta na duração ou intensidade dos sintomas mais graves.
Pauling publicou, em 1970, o livro Vitamin C and the Common Cold, no qual defendia o consumo diário de cerca de 1.000 a 2.000 miligramas de vitamina C e doses ainda superiores para prevenir constipações. As conclusões foram posteriormente criticadas devido, entre outros fatores, à utilização de estudos considerados de baixa qualidade e a problemas na interpretação dos resultados.
Uma meta-análise publicada em 2023, que reuniu dez ensaios clínicos controlados por placebo envolvendo 2.736 pessoas saudáveis, concluiu que a ingestão regular de pelo menos 1.000 miligramas de vitamina C por dia reduziu em cerca de 15% alguns sintomas mais graves. Contudo, a vitamina não demonstrou efeito relevante sobre os sintomas ligeiros. Uma análise anterior, de 2013, também concluiu que a suplementação regular não reduz o número de constipações na população em geral, embora tenha identificado alguns benefícios entre atletas e militares.
Os estudos indicam ainda que o eventual benefício é relativamente pequeno: a toma regular de vitamina C pode reduzir em cerca de 8% a 14% a intensidade dos sintomas e aproximadamente 10% a sua duração em determinados casos. Por exemplo, se os sintomas mais graves durarem cinco dias, uma redução de 10% corresponderia a cerca de 12 horas. A toma de vitamina C apenas depois do aparecimento dos primeiros sintomas, por outro lado, não demonstrou benefícios significativos.
As doses elevadas também não são isentas de riscos. O consumo prolongado de mais de 1.000 miligramas por dia pode provocar diarreia, náuseas, cólicas e inchaço, além de aumentar a excreção de oxalato e, potencialmente, o risco de cálculos renais. Quantidades elevadas podem ainda aumentar a absorção de ferro em pessoas com determinadas doenças e interagir com alguns tratamentos. Assim, para a maioria das pessoas, uma alimentação equilibrada continua a ser a principal forma de obter vitamina C, não existindo evidência de que megadoses impeçam as constipações.
