e-Global

Entrevista: Azawad nunca deixará de lutar pela sua existência

Num momento em que o Mali e toda a região do Sahel atravessam uma crise política e de segurança sem precedentes, a voz de Abdoul Karim ag Matafa impõe-se como a de uma geração decidida a fazer ouvir a causa azawadiana.

Nascido a 15 de novembro de 1982 em Tessit, na região de Gao, este homem, calmo e ponderado, encarna uma nova figura do movimento político no seio da luta azawadiana. Atual responsável pela administração e coordenação no Bureau Executivo da Frente de Libertação da Azawad (FLA), ele simboliza a transição entre a geração histórica da rebelião e a dos quadros formados, determinados a construir instituições e a reivindicar legitimidade política.

Sentado num escritório modesto, coberto de mapas do norte do Mali e de dossiers de arquivo, Abdoul Karim ag Matafa fala longamente do seu percurso e da luta do seu povo.

Abdoul Karim ag Matafa cresceu em Tessit, antes de prosseguir os estudos em Bamaco, onde obteve um mestrado em Gestão na Faculdade de Ciências Económicas e de Gestão. Esse percurso académico permitiu-lhe compreender os mecanismos do Estado moderno e preparar uma geração azawadiana capaz de gerir o seu próprio destino. “Desde muito novo compreendi que o nosso futuro dependeria da nossa unidade e da nossa capacidade de organização”, afirma. Foi nesse espírito que participou na fundação do Movimento Nacional da Azawad (MNA), antes de assumir a presidência do Conselho Revolucionário do Movimento de Libertação da Azawad (MLA) em 2011 e de integrar o Conselho Transitório instaurado após a proclamação de independência de 2012.

Atualmente é um dos quadros ativos da FLA, onde trabalha para reforçar a coesão interna e o funcionamento institucional do movimento. “O nosso trabalho é antes de mais estrutural”, explica. “Trata-se de garantir estabilidade, disciplina e credibilidade à causa azawadiana, construindo uma organização sólida e duradoura.”

A conversa rapidamente orienta-se para a situação dramática que se vive na Azawad. “Vivemos um momento decisivo. A junta maliana, com a cumplicidade de mercenários russos, conduz uma guerra sangrenta contra a nossa população. Não se trata apenas de uma crise de segurança: é uma limpeza étnica.” Fala de massacres de civis, deslocações forçadas e de uma política deliberada de substituição das populações de várias localidades do norte do Mali. O que mais o revolta, diz Abdoul Karim ag Matafa, é o silêncio do internacional perante esta tragédia. “A comunidade internacional permanece muda, enquanto um povo inteiro vive o exílio, o sofrimento e a privação dos seus direitos fundamentais. Mas a nossa determinação não enfraquecerá: a unidade e a resistência do nosso povo são as nossas únicas armas para preservar a liberdade.”

“Contamos apenas com a vontade do nosso povo”

Questionado sobre quais as potências internacionais em que a Azawad pode confiar, responde sem hesitar, “Nenhuma. Contamos apenas com a vontade do nosso povo. Todos os movimentos de libertação no mundo tiveram, em algum momento, o apoio de um Estado para levar a sua causa à ONU. Nós, não. Fomos sacrificados pela França no altar da sua política de Françafrique.” Faz uma pausa e acrescenta: “Este silêncio não é neutralidade, é cumplicidade.”

Para Abdoul Karim ag Matafa, o problema ultrapassa o caso maliano. Enraíza-se na própria estrutura das fronteiras africanas herdadas da colonização. Denuncia “um traçado arbitrário, imposto sem respeito pelos povos nem pelas realidades culturais e geográficas”. A Azawad, prossegue, “é o exemplo mais claro disso. Uma nação antiga, com a sua história, o seu território e a sua cultura, foi integrada à força num Estado centralizado que nunca respeitou a sua identidade. Há mais de sessenta anos que esta injustiça alimenta revoltas e massacres.” Repensar essas fronteiras, defende, “não é semear o caos, é permitir que os povos se organizem segundo a sua história. É a única via para uma paz duradoura no Sahel.”

Abdoul Karim ag Matafa refere também dos numerosos acordos de paz assinados entre Bamaco e os movimentos azawadianos desde 1963, todos eles fracassados. “Esses acordos nunca foram respeitados. Bamaco nunca quis a paz real. Cada promessa foi seguida de repressão. Nem a MINUSMA nem as potências parceiras conseguiram impor uma solução duradoura, porque o poder maliano nunca foi sincero.” Para Abdoul Karim ag Matafa, a conclusão é inequívoca, “a única saída é o reconhecimento da Azawad como Estado livre e independente. É uma necessidade histórica e a condição essencial para uma paz estável em toda a região.”

Antes de encerrar, Abdoul Karim ag Matafa insiste na dimensão histórica da luta azawadiana. “Desde 1893 que os nossos antepassados nunca deixaram de defender a nossa terra, a nossa cultura e a nossa existência. Devemos-lhes a continuidade dessa luta, com dignidade e inteligência. A Azawad não procura a guerra, procura a justiça. Queremos apenas viver livres e em paz.”

Exit mobile version