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Moçambique: “Depois da violência que vi, não penso regressar a Mocímboa da Praia” — reportagem com mãe deslocada em Nampula

Já lá vão quase 10 anos desde o início dos ataques terroristas na rica região de gás, província de Cabo Delgado, que tiveram origem na vila autárquica de Mocímboa da Praia, uma região onde muçulmanos e cristãos das etnias Muani, Makonde, bem como a minoria Makua e os Swahili, partilhavam o mesmo espaço geográfico antes do conflito e voltam, gradualmente, a partilhá-lo com o processo de regresso da população.

Embora actualmente se registe o regresso de parte da população e o restabelecimento das instituições do Estado, como a Administração Distrital e o Conselho Municipal, com o apoio das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique e das forças do Ruanda, há quem ainda não pense em regressar às suas terras de origem, devido à extrema violência que viveu.

É o caso de Mariamo Abdala (nome fictício), actualmente residente no bairro Mutava Rex, unidade residencial do Brito, nos arredores da cidade de Nampula. Mãe de cinco filhas, afirma que, apesar das dificuldades que enfrenta, ainda não reúne condições psicológicas para regressar a um local onde guarda memórias de extrema barbárie.

“Eu vi tudo pessoalmente. Naquele dia, não acreditei que sairia com vida. Tinha comigo a filha mais nova, enquanto as outras já tinham fugido para uma ilha. Foi terrível. Vi um senhor a correr até ao mar enquanto lhe disparavam vários tiros. No fim, descobriu-se que era o próprio filho quem o perseguia”, relatou, a senhora cuja filha mais velha casou-se com um jovem local.

“Aquilo que fizeram foi muito cruel. Levaram muitas crianças e raparigas para o mato, eu a ver um loco. Ainda hoje não consigo acreditar que essas pessoas possam ter deixado de matar quando capturam alguém. Vi jovens a brincar com armas e a matar pessoas como se aquilo fosse uma brincadeira”, acrescentou.

Além da violência, Mariamo Abdala testemunha que várias crianças perderam a vida devido à fome “Nós saímos de Milamba, passámos até uma zona chamada Luvula, uma pequena ilha. Havia muitas pessoas, mas sem o mínimo para se alimentarem. Foi ali que algumas crianças morreram de fome e outras chegaram a ser arrastadas pelas águas do mar”, contou.

Milamba é um bairro de Mocímboa da praia, habitado por maioritariamente por povo Muani, onde considerável número de jovens se juntou ao grupo terrorista. É neste bairro onde há meses os insurgentes chegaram e raptaram raparigas.

Outro episódio que continua a marcar aquela mãe deslocada, foi o facto de uma senhora ter recusado reconhecer uma criança como sendo sua parente.

“Nós subimos numa embarcação a vela com uma criança desacompanhada. Quando ela viu uma tia paterna, acreditámos que finalmente estaria em segurança. Mas aquela senhora disse que não a conhecia e recusou acolhê-la, justificando que já tinha muitos filhos e não saberia como sustentá-la. Aquilo marcou-me até hoje”, partilhou, acrescentando que muitas crianças desapareceram durante a fuga.

Apesar de acompanhar as notícias sobre o regresso da população à vila de Mocímboa da Praia, Mariamo Abdala diz que não pretende regressar, por enquanto.

“Quem quiser voltar, pode voltar. Mas eu ainda não acredito que haja condições. Pior ainda, continuamos a receber informações de que há forças que cometem abusos. Por isso, para nós, por enquanto, regressar ainda não é uma opção”, concluiu.

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