Capacitar adolescentes para a sustentabilidade financeira é um dos objetivos deste projeto que atua em zonas de exploração mineira, onde o trabalho infantil e os casamentos forçados são frequentes. A abertura de negócios em setores críticos, como o agroalimentar ou a informática, exige competências técnicas e o desenvolvimento de soft skills para negociar, liderar equipas ou resolver conflitos.
No Dundo e em Luena, no nordeste de Angola, 45 jovens entre os 14 e os 18 anos vão aprender a transformar ideias simples em pequenos negócios capazes de funcionar em zonas marcadas por uma enorme vulnerabilidade económica. A formação vai ser dada pela Iscte Business School em parceria com a USEPHA, uma ONG angolana especializada na capacitação para a gestão de micro e pequenos negócios.
O projeto chama-se “Impactful entrepreneurship for inclusion and diversity in Africa”. Nele, ao longo dos próximos semestres, serão ensinados não só conhecimentos técnicos de empreendedorismo, mas também competências interpessoais essenciais como a comunicação, a integridade, a resiliência, o trabalho em equipa e princípios de tomada de decisão. O objetivo é empoderar estes adolescentes para eles alcançarem a sua plena autonomia e sustentabilidade financeira, rompendo ciclos geracionais de exclusão e assumindo um papel ativo no futuro das suas comunidades.
“Este projeto está a trabalhar com jovens com enorme potencial, criatividade e desejo de mudança, mas que vivem em contextos profundamente adversos, sem acesso a educação formal de qualidade ou a oportunidades económicas mínimas”, afirma Renato Pereira, Associate Dean for Internationalization and Research da Iscte Business School e coordenador do projeto “Impactful entrepreneurship for inclusion and diversity in Africa”. “A nossa missão é capacitar estes jovens com ferramentas de empreendedorismo que lhes permitam estruturar iniciativas económicas viáveis, com impacto social duradouro nas suas comunidades”.
Depois de uma primeira ação em novembro de 2024, e de uma nova edição em abril deste ano, a próxima intervenção está marcada para agosto de 2025. Essa ação de capacitação irá decorrer numa das regiões associadas à exploração desenfreada de diamantes, um setor que gera muita riqueza, mas cujos benefícios raramente chegam às populações locais. Segundo Renato Pereira, “a atividade mineira, em muitos locais totalmente informal e sem regulação adequada, tem agravado fenómenos como o trabalho infantil, os casamentos forçados e o recrutamento de adolescentes por redes criminosas”.
Ao longo das dez ações de capacitação previstas até 2027, todas com uma forte componente prática, os participantes irão aprender a desenvolver um negócio desde o início: elaborar orçamentos, planear a produção, definir preços, negociar com parceiros e apresentar ideias com clareza, são alguns dos conteúdos que serão ministrados. Os formandos irão também desenvolver competências interpessoais fundamentais – as chamadas “soft skills” – como integridade, criação de redes de contactos, resiliência perante dificuldades persistentes, resolução de conflitos e trabalho em equipa. Fora das sessões, existirão encontros semanais na sede da USEPHA no Dundo, onde aprofundarão conhecimentos complementares fundamentais, como ferramentas informáticas e utilização estratégica das redes sociais. A USEPHA é uma ONG fundada por um doutorando do Iscte, o angolano Adolfo Caiji Cabeia.
“A nossa metodologia parte da realidade local e procura responder a necessidades concretas, de forma realista e aplicável”, afirma o Associate Dean da Escola de Gestão do Iscte. “Focamo-nos em setores críticos, como o agroalimentar, que além de representar uma oportunidade económica, tem um impacto direto na segurança alimentar das comunidades”, explica Renato Pereira. “O objetivo não é apenas criar negócios, mas fundamentalmente construir respostas enraizadas nos territórios, uma vez que a sustentabilidade de qualquer iniciativa, sobretudo nestes contextos, depende da sua capacidade de mobilizar e empoderar as comunidades locais e de gerar confiança”.
Outra parte essencial deste projeto é a sua articulação com instituições locais. Destaca-se a parceria do governo provincial da Lunda-Norte, do Instituto Nacional de Apoio às PME (INAPEM), da Universidade Lueji A’Nkonde e de órgãos de comunicação social daquela região angolana. “Sem envolvimento institucional e comunitário, não há transformação real”, afirma Renato Pereira. “Estes jovens não serão apenas microempreendedores: podem vir a ser líderes locais, mentores e referências para os que virão a seguir”.
Com financiamento próprio da Iscte Business School, no contexto do orçamento das iniciativas estratégicas da Escola, e o patrocínio de alguns dos parceiros angolanos, o projeto prepara agora uma segunda fase: reforçar o acompanhamento dos projetos com maior potencial e criar pontos de apoio dentro das comunidades. A abordagem já começou a gerar reconhecimento internacional. A Global Business School Network (GBSN) demonstrou interesse em que esta iniciativa se integre numa comunidade de impacto mais alargada com outros parceiros internacionais interessados na mesma problemática, o que poderá aumentar significativamente a escala do projeto e abrir novas oportunidades em termosde financiamento, além de permitir a replicação do modelo noutras regiões de África e fora do continente.
“No essencial, esta iniciativa visa restaurar a capacidade de sonhar e de agir, mesmo em lugares onde a esperança foi esmagada por décadas de exclusão”, conclui o docente da Iscte Business School, Renato Pereira. “Acreditamos que o ensino superior deve desempenhar um papel ativo na transformação social. Este projeto é a prova de que o conhecimento, quando aplicado com propósito, pode devolver dignidade, futuro e sentido de pertença a comunidades historicamente marginalizadas”.
Para obter mais informações contactar por favor Maria Fernandes: 915 678 690
