O Brasil assinala, esta segunda-feira, 7 de Setembro, os seus 204 anos da Independência num ambiente que combina as tradicionais cerimónias cívico-militares com uma agenda política marcada pelas eleições gerais de outubro e pelos recentes desenvolvimentos do caso Banco Master. Brasília concentra as principais comemorações oficiais, enquanto São Paulo, Goiânia, Belém e outras cidades recebem desfiles, manifestações e actos ligados às diferentes forças políticas do país.
Na capital federal, o tradicional Desfile Cívico-Militar na Esplanada dos Ministérios começou às 9h locais, com duração prevista de cerca de duas horas e a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de membros do Governo. O Executivo definiu para as comemorações deste ano três eixos: “soberania nacional, combate à violência contra as mulheres e a realização, no Brasil, do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino de 2027”.
A programação inclui a participação de tropas do Exército, da Marinha e da Força Aérea. As autoridades prepararam uma operação especial de segurança, mobilidade e atendimento ao público. A expectativa anunciada pelo Governo do Distrito Federal é de cerca de 30 mil espectadores, com reforço de 134 autocarros e gratuitidade nos transportes públicos do Distrito Federal durante o feriado. O acesso às bancadas começou às 6h locais e foram definidas restrições à entrada de armas, objectos perfurantes, explosivos, drones e outros equipamentos considerados de risco.
As comemorações de 2026 decorrem num momento diferente dos últimos anos. O país está a menos de um mês da primeira volta das eleições gerais, marcada para 4 de outubro. Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a escolher presidente e vice-presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Uma eventual segunda volta terá lugar em 25 de outubro.
Neste contexto, o 7 de Setembro tornou-se também palco da campanha eleitoral. Em São Paulo, Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, marcou para às 15h uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo. Romeu Zema (Novo) também programou um acto na mesma avenida, às 9h20. Renan Santos (Missão) anunciou presença no Obelisco do Parque do Ibirapuera, também em São Paulo, enquanto candidatos de partidos de esquerda participam em mobilizações ligadas ao Grito dos Excluídos. Hertz Dias (PSTU), por exemplo, tem participação prevista numa iniciativa em Cajamar, e Rui Costa Pimenta (PCO) anunciou presença no Grito dos Excluídos em São Paulo. Em Belém, Samara Martins (UP) programou um acto para o final da tarde. Lula não anunciou agenda pública de campanha para esta segunda-feira.
Na cidade do Rio de Janeiro, o candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) convocou a Caminhada da Independência Cury Brasil, em Copacabana. A concentração foi marcada para às 9h locais, no Posto 6, com percurso pela Avenida Atlântica até ao Posto 5, onde está previsto um comício. A mobilização tem carácter eleitoral e foi apresentada pela candidatura com uma “mensagem de pacificação e redução da polarização política”. Também está previsto o 32.º Grito dos Excluídos e das Excluídas no centro do Rio de Janeiro. Movimentos populares, sindicatos, organizações da sociedade civil e partidos de esquerda anunciaram concentração a partir das 9h30 locais no cruzamento da Avenida Presidente Vargas com a Rua Uruguaiana, no centro da cidade. Entre as reivindicações deste ano estão “terra, paz, habitação, direitos sociais, soberania nacional e questões relacionadas com a situação das mulheres”. Ainda no estado do Rio, Petrópolis também integra a mobilização nacional do Grito dos Excluídos, com um acto marcado para às 9h locais, na Praça do Bosque.
A mobilização política ocorre num momento de aproximação entre os principais candidatos nas sondagens. Pesquisa Datafolha divulgada na última semana indicou Lula com 38% das intenções de voto na primeira volta e Flávio Bolsonaro com 33%, enquanto Augusto Cury (Avante) aparecia com 8%. Numa simulação de segunda volta, Lula registava 46% e Flávio Bolsonaro 44%, diferença dentro da margem de erro do levantamento.
Escândalos marcam agenda
Entre os temas que entraram directamente na campanha está o caso Banco Master, que passou de uma questão do sistema financeiro para uma crise com repercussões políticas e institucionais. O Banco Central do Brasil decretou, em 18 de novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. Segundo o regulador, a decisão foi motivada por uma grave crise de liquidez, pelo comprometimento da situação económico-financeira e por graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. O conglomerado representava, então, 0,57% dos activos e 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.
Paralelamente, a Polícia Federal passou a investigar suspeitas de fraudes financeiras através da Operação Compliance Zero. O empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, tornou-se uma das figuras centrais das investigações. O Banco Central constituiu também uma comissão de inquérito para apurar responsabilidades nas instituições integrantes do conglomerado. Em março deste ano, o Banco Master Múltiplo, que ainda estava sob um regime especial de administração temporária, passou igualmente para liquidação extrajudicial.
O caso ganhou uma nova dimensão no início de Setembro, depois de informações extraídas pela Polícia Federal do telemóvel de Vorcaro indicarem comunicações com figuras de diferentes áreas do poder público, incluindo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A Agência Brasil confirmou que as referências surgiram após a quebra de sigilo do aparelho apreendido na investigação. Os elementos estão sob análise institucional e não correspondem, por si só, a condenações ou provas definitivas de responsabilidade criminal.
As revelações provocaram tensão dentro do próprio STF. O presidente da Corte, Edson Fachin, afirmou que os indícios exigem encaminhamento institucional e anunciou que as medidas seriam adoptadas depois da análise dos factos e dos procedimentos aplicáveis. Nos últimos dias, o tema passou também para o centro da disputa entre Governo e oposição, com candidatos e dirigentes partidários procurando associar adversários aos diferentes personagens citados nas investigações.
A crise em torno do Master deverá estar presente nos discursos das manifestações deste 7 de Setembro, sobretudo nos actos da oposição. A campanha de Flávio Bolsonaro tem procurado utilizar os desenvolvimentos relacionados com o STF como um dos temas de mobilização, enquanto adversários políticos também exploram informações sobre contactos de Vorcaro com representantes de diferentes campos partidários. A investigação permanece em curso e várias das informações divulgadas nas últimas semanas ainda estão sujeitas a apuração judicial.
Ígor Lopes
