O Data Favela divulgou, no dia 17 de novembro, num direto no canal de YouTube da Central Única das Favelas (CUFA) Nacional, a inédita investigação “Raio-X da Vida Real”, o que é considerado o “maior estudo” já realizado com pessoas em situação de crime no tráfico de drogas no Brasil.
O estudo, que ouviu 3.954 entrevistados em plena atividade, em favelas de 23 estados, foi realizado entre 15 de agosto e 20 de setembro e teve como base uma metodologia presencial com investigadores moradores de favelas, garantindo mais profundidade, precisão e legitimidade à recolha de dados.
No recorte do Rio de Janeiro, os dados confirmam um cenário “crítico”, mas também apontam caminhos reais para redução da criminalidade nas favelas fluminenses: o levantamento mostra que 70% das pessoas no crime no Rio deixariam imediatamente essa atividade se tivessem oportunidade, um índice superior à média nacional (58%), e apenas 18% dos entrevistados fluminenses afirmam que não sairiam do tráfico.
Segundo o estudo, o principal motivo para a entrada e permanência no crime é a necessidade económica: no Rio, 55% afirmam ter começado a traficar por falta de dinheiro, também acima do índice nacional (49%). A vida no crime, contudo, não garante sustento estável: 63% ganham até dois salários mínimos, e muitos precisam de exercer uma segunda atividade legal para complementar os rendimentos.
A pesquisa mostra ainda que o emprego formal é o fator mais decisivo para que os fluminenses deixem o crime: enquanto no Brasil 20% aceitariam sair por uma vaga num emprego formal, no Rio esse índice sobe para 30%, mais que o dobro de São Paulo.
Por outro lado, apenas 8% dos entrevistados fluminenses aceitariam trocar o crime por um trabalho flexível, como condutor de aplicativo, mostrando que o desejo por estabilidade pesa mais para essa população.
Entre os motivos que impedem a saída, 38% das pessoas no Rio destacam o risco de vida como um dos principais fatores, mais que o dobro de São Paulo (16%), apesar de a violência quotidiana, os conflitos armados e as disputas territoriais tornarem a decisão de sair do crime uma opção perigosa.
“Os dados confirmam aquilo que a CUFA observa há décadas nas favelas: a criminalidade não é projeto de vida, é falta de oportunidade. Quando perguntamos se sairiam do crime caso tivessem uma chance real, 70% dos fluminenses dizem que sim. Não é sobre escolha entre o certo e o errado; é sobre sobreviver”, sublinhou Marcus Vinicius Athayde, CEO do Data Favela.
Para este organismo, os resultados mostram também que o emprego, os salários e o empreendedorismo são os pilares mais eficazes para enfrentar a criminalidade, mais do que ações exclusivamente repressivas.
Neste sentido, para produzir resultados rápidos e duradouros em territórios vulnerabilizados, a pesquisa sugere a criação de um programa nacional de geração de oportunidades de trabalho com uma sólida articulação entre governo, empresas e sociedade civil.
Ígor Lopes
