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Brasil: Eleições entram na fase dos debates com as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, líderes nas sondagens

A campanha presidencial brasileira entrou numa nova fase neste domingo, 23 de agosto, com a realização do primeiro debate entre candidatos ao Palácio do Planalto. O encontro promovido pelo Grupo Bandeirantes, em São Paulo, ficou marcado menos pelo número de participantes e mais pelas ausências. Dos seis presidenciáveis convidados pela emissora, apenas Ronaldo Caiado, do PSD, Renan Santos, do Missão, e Augusto Cury, do Avante, estiveram no estúdio. Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e atual presidente, Flávio Bolsonaro, do PL, e Romeu Zema, do Novo, não compareceram e tiveram os respetivos púlpitos mantidos vazios durante a transmissão.

O debate abriu a temporada de confrontos televisivos da eleição presidencial de 2026 e foi realizado pela Band com participação de outros veículos de comunicação. O programa começou às 20h, horário de Brasília, e teve três blocos, com perguntas de jornalistas e confrontos diretos entre os candidatos. Segurança pública, economia, educação, relações internacionais, corrupção, escala de trabalho 6×1 e regras eleitorais estiveram entre os temas abordados.

A redução do encontro a três participantes produziu o debate presidencial inaugural com menor número de candidatos desde a eleição de 1989. Os três presentes concentraram parte das intervenções nas ausências dos principais concorrentes, sobretudo Lula e Flávio Bolsonaro, que ocupam as primeiras posições nas pesquisas de intenção de voto.

A corrida pelo Palácio do Planalto, no entanto, é maior do que o cenário apresentado pela Band. O Tribunal Superior Eleitoral recebeu 13 pedidos de registo de candidatura à Presidência: Luiz Inácio Lula da Silva, do PT; Flávio Bolsonaro, do PL; Ronaldo Caiado, do PSD; Romeu Zema, do Novo; Augusto Cury, do Avante; Renan Santos, do Missão; Clariana Barão, da Democracia Cristã; Edmilson Costa, do PCB; Hertz Dias, do PSTU; Rui Costa Pimenta, do PCO; Samara Martins, da Unidade Popular; Wilson Grassi, do Democrata; e Pablo Marçal, do PRTB. Os pedidos ainda estão sujeitos à análise da Justiça Eleitoral.

A legislação brasileira não obriga as emissoras a convidar todos os candidatos. A Lei das Eleições assegura a participação nos debates aos candidatos de partidos com representação mínima de cinco parlamentares no Congresso Nacional e permite que as emissoras convidem outros concorrentes. Para o encontro deste domingo, a Band decidiu chamar seis candidatos.

No estúdio, Ronaldo Caiado procurou apresentar resultados da sua experiência administrativa no Estado de Goiás, na região centro-oeste do Brasil, e concentrou intervenções em segurança, economia e educação. Renan Santos adotou uma estratégia de confronto, dirigiu críticas aos candidatos ausentes e defendeu, entre outras propostas, intervenção federal em estados onde, na sua avaliação, o crime organizado tenha ultrapassado a capacidade das autoridades locais. Augusto Cury, conhecido psicólogo e autor de obras de auto-ajuda, direcionou parte das intervenções para educação, saúde mental e relações internacionais. Caiado também defendeu que a presença de candidatos em debates passe a ser obrigatória.

A participação de Cury esteve em dúvida até poucos minutos antes do programa. O candidato do Avante chegou à sede da Band, anunciou que não participaria como forma de protesto contra as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro e chegou a regressar ao automóvel. Posteriormente, voltou atrás e entrou no estúdio. Durante esse período, abriu uma transmissão ao vivo no Instagram, na qual Pablo Marçal participou.

Entre os três convidados que deixaram os púlpitos vazios, Lula justificou a decisão com críticas às condições definidas para o debate. A campanha do presidente questionou a inclusão de candidatos cuja presença não era obrigatória pela legislação eleitoral e avaliou que o formato o colocaria no centro dos ataques dos adversários. Enquanto a Band transmitia o debate, a Record exibia no programa de grande audiência “Domingo Espetacular” uma entrevista de Lula.

Flávio Bolsonaro também não teve agenda pública de campanha divulgada para o domingo. A estratégia do candidato do PL tem sido condicionar a sua participação nos principais debates à presença de Lula, sob o argumento de que pretende confrontar diretamente o atual presidente. Durante a noite, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais para explicar a ausência e apresentar críticas ao Governo Federal.

Romeu Zema, antigo governador do Estado de Minas Gerais, por sua vez, começou o domingo no Rio de Janeiro. O candidato do Novo participou, às 6h20, na Missa no bairro da Penha e, mais tarde, confirmou que não seguiria para o debate. A campanha afirmou que a mudança da data inicialmente prevista para o encontro havia sido aceite na expectativa de participação de Lula e que, com a ausência do presidente e de outros concorrentes, essa alteração perdera o propósito.

A ausência de Pablo Marçal teve uma origem diferente. O empresário e influenciador registou no TSE, pelo PRTB, um pedido de candidatura à Presidência no último dia do prazo, 15 de agosto. O registo ainda depende de julgamento e Marçal enfrenta decisões da Justiça Eleitoral que o consideram inelegível. Em 20 de agosto, o TSE concedeu uma tutela de urgência que o impediu de utilizar recursos dos fundos partidário e eleitoral, de participar na propaganda gratuita no rádio e na televisão e de praticar atos de propaganda eleitoral, incluindo debates, enquanto o mérito do pedido de registo é analisado.

Mesmo fora do estúdio, Marçal procurou manter presença digital durante a noite eleitoral. Pouco antes do início do confronto, participou na live aberta por Augusto Cury diante da Band. Houve também registos de transmissão de Marçal nas suas plataformas digitais durante a faixa horária do debate. A legislação eleitoral aprovada para 2026 considera a utilização de live por um candidato para promoção pessoal ou de atos relacionados com o mandato como ato público de campanha. Até ao momento, porém, não foi identificada uma nova decisão do TSE que analise especificamente a transmissão realizada por Marçal neste domingo, pelo que não é possível concluir, sem pronunciamento judicial, quais serão os efeitos jurídicos dessa iniciativa.

Os candidatos que não foram convidados pela Band mantiveram estratégias próprias durante o domingo. Edmilson Costa, do PCB, anunciou uma transmissão online para comentar o debate. Hertz Dias, do PSTU, esteve numa atividade da Ocupação Esperança, em Osasco, no estado de São Paulo. Samara Martins, da UP, participou em compromissos políticos em Fortaleza, no Ceará. Wilson Grassi dedicou o dia à preparação de propostas, enquanto Clariana Barão e Rui Costa Pimenta não tiveram agenda pública de campanha divulgada.

É importante, portanto, distinguir os candidatos ausentes dos candidatos não convidados. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema tinham convite e decidiram não participar. Pablo Marçal estava impedido por decisão do TSE. Os restantes concorrentes não integravam o grupo definido pela Band para o primeiro confronto televisivo.

A disputa segue. Na última segunda-feira, 24 de agosto, Lula e Flávio Bolsonaro estavam à frente das pesquisas. Levantamento BTG/Nexus, realizado entre 21 e 23 de agosto com 2.006 eleitores, aponta Lula com 41% e Flávio com 37% num cenário de primeira volta sem Marçal. Quando Marçal é incluído, Lula aparece com 40% e Flávio com 34%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

As Eleições Gerais brasileiras estão marcadas para 4 de outubro. Mais de 155 milhões de eleitores estão aptos a escolher presidente e vice-presidente da República, governadores, dois senadores por Estado, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Caso nenhum candidato à Presidência alcance a maioria necessária na primeira volta, a segunda votação será realizada em 25 de outubro.

Especialistas indicam que o primeiro debate mostrou uma campanha em que a disputa pela atenção do eleitor ocorre simultaneamente na televisão e nas plataformas digitais. Enquanto três candidatos ocupavam o estúdio da Band, outros presidenciáveis utilizaram entrevistas gravadas, vídeos e transmissões online para comunicar diretamente com os seus públicos.

Ígor Lopes

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