O estudo “Mudanças climáticas, anomalias térmicas e a recente progressão da dengue no Brasil”, publicado no portal Scientific Reports da Nature, revela que “as constantes ondas de calor causadas pelas mudanças climáticas associadas à urbanização incompleta e à grande circulação de pessoas em determinadas áreas estão a influenciar na expansão da dengue para o interior do Brasil”. As informações são da autoria do pesquisador Christovam Barcellos, do Observatório de Clima e Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz).
Note-se que a dengue é uma doença viral transmitida por mosquitos que ocorre em áreas tropicais e subtropicais, e o Brasil tem sido duramente atingido por essa epidemia. As autoridades sanitárias brasileiras confirmaram 363 mortes por dengue, no Brasil, em 2024. Há ainda 763 óbitos em investigação e que podem ter sido causados pela doença, totalizando 1.126 mortes confirmadas ou suspeitas até o momento.
No artigo, Barcellos ressalta que a dengue está a espalhar-se para as regiões Sul e Centro-Oeste, onde a doença não era tão comum, “por conta do aumento na ocorrência de eventos climáticos extremos, como secas e inundações”. Além disso, outro fator decisivo seria a “degradação ambiental, especialmente no Cerrado, que vem sofrendo com o desflorestação, queimadas e conversão de florestas em pasto.”
“No interior do Paraná, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul, o aumento de temperaturas está a tornar-se quase permanente. A gente tinha cinco dias de anomalia de calor, agora são 20, 30 dias de calor acima da média ao longo do verão. Isso dispara o processo de transmissão de dengue, tanto por causa do mosquito quanto pela circulação de pessoas”, explicou Barcellos.
“Nessas regiões que estão sofrendo com altas de temperatura, também temos visto uma desflorestação muito acelerada. E dentro do Cerrado Brasileiro, há as cidades que já têm ilhas de calor, áreas de subúrbio ou periferias com péssimas condições de saneamento, tornando mais difícil combater o mosquito”, disse.
Segundo apurámos, o estudo utilizou técnicas de mineração de dados para avaliar a associação entre anomalias térmicas, fatores demográficos e mudanças nos padrões de incidência de dengue, ao longo de um período de 21 anos (2000-2020), nas microregiões do Brasil. O artigo também é assinado pelos pesquisadores Vanderlei Matos, do Observatório de Clima e Saúde do Icict/Fiocruz, e Rachel Lowe e Raquel Martins Lana, do Centro de Supercomputação de Barcelona, com o qual o Observatório mantém uma cooperação técnica através do projeto Harmonize.
Ígor Lopes
