Apesar de uma taxa básica de juro (Selic) de 15%, uma das mais elevadas entre as principais economias do mundo, o crédito bancário no Brasil cresceu 11,5% em 2024 e a emissão de obrigações corporativas aumentou 30%, segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado na passada quinta-feira (9 de outubro).
O relatório, assinado por Swarnali Hannan, Daniel Leigh e Rui Xu, explica que esse crescimento do crédito, apesar do aperto monetário, foi impulsionado sobretudo pelo aumento do rendimento das famílias e pela expansão das fintechs, que ampliaram o acesso ao crédito e a concorrência no sistema financeiro. Ainda assim, o FMI sublinha que a transmissão da política monetária no Brasil continua a funcionar e que os sinais mais recentes apontam para uma desaceleração gradual do crédito.
O documento destaca que o Banco Central do Brasil foi um dos primeiros entre as grandes economias a aumentar as taxas de juro após a pandemia, procurando conter a inflação e as expectativas inflacionistas, ainda acima da meta de 3%. De acordo com a análise, um aumento de 1 ponto percentual na taxa Selic eleva as taxas de juro dos empréstimos em cerca de 0,7 ponto após quatro meses, mostrando que o mecanismo de transmissão monetária permanece eficaz.
Segundo o FMI, a expansão do crédito nos últimos anos reflete tanto fatores conjunturais — como o crescimento económico acima do esperado e a baixa taxa de desemprego — quanto mudanças estruturais, nomeadamente a inclusão financeira promovida pelas fintechs. Em 2024, os bancos digitais e outras plataformas financeiras já representavam um quarto do mercado de cartões de crédito e mais de 10% dos empréstimos pessoais não consignados. O aumento da concorrência reduziu as taxas médias praticadas pelos grandes bancos e ampliou as fontes de financiamento para empresas, com o mercado de obrigações triplicando em tamanho na última década.
Com o recente abrandamento no volume de novos empréstimos desde abril, o FMI considera que o “tratamento monetário” está a funcionar. O organismo conclui que as preocupações sobre a ineficácia da política monetária brasileira são em grande parte infundadas e que o sistema financeiro do país continua a responder de forma saudável às decisões do Banco Central.
