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Rio de Janeiro: Operação policial expõe desafio da segurança a poucos dias da eleição para governador

Uma operação da Polícia Militar no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, deixou três pessoas mortas e provocou uma sucessão de confrontos, bloqueios e alterações na rotina de milhares de moradores na última segunda-feira, 28 de setembro. O episódio ocorreu a menos de uma semana da primeira volta das eleições de 4 de outubro, quando os eleitores do Estado do Rio de Janeiro escolherão, entre outros cargos, o próximo governador.

A ação concentrou-se nas comunidades do Timbau e da Baixa do Sapateiro e mobilizou cerca de 200 polícias de unidades como o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), o Batalhão Tático de Motociclistas, o Batalhão de Polícia de Choque e o Batalhão de Ações com Cães, além de apoio aéreo e sete veículos blindados. Segundo a Secretaria de Estado de Polícia Militar, as três pessoas que morreram eram consideradas suspeitas. A operação resultou ainda em detenções e na apreensão de 12 fuzis, oito pistolas, granadas, munições, carregadores e 83 quilos de droga.

Os confrontos atingiram também quem não estava envolvido na operação. Dois adolescentes ficaram feridos e um polícia militar foi atingido no braço. Dados divulgados durante o dia também registaram outros feridos encaminhados para unidades hospitalares. A Secretaria Municipal de Educação informou que 41 escolas foram afetadas, enquanto quatro unidades de atenção primária de saúde suspenderam o funcionamento.

A violência estendeu-se às principais vias da região. Segundo a Polícia Militar, homens armados ligados à fação que atua na Maré realizaram ações na Linha Vermelha e na Rodovia Washington Luiz como reação à operação. Dois autocarros escolares, com cerca de 120 alunos, foram intercetados na Linha Vermelha. Os para-brisas foram partidos e os veículos atravessados na via. Nenhum estudante ficou ferido, mas a Linha Vermelha permaneceu interditada durante cerca de uma hora.

O episódio voltou a colocar a segurança pública no centro da campanha eleitoral fluminense. O Rio de Janeiro tem nove candidaturas ao Governo do Estado: Eduardo Paes, do PSD; Douglas Ruas, do PL; Anthony Garotinho, do Republicanos; André Marinho, do Novo; Coronel Busnello, do Missão; Juliete Pantoja, da Unidade Popular; William Siri, do PSOL; Luan Monteiro, do PCO; além dos restantes nomes formalizados pela Justiça Eleitoral. A primeira volta realiza-se no próximo domingo, 4 de outubro, e uma eventual segunda volta está marcada para 25 de outubro.

Entre os candidatos que têm concentrado maior atenção na campanha, Eduardo Paes apresenta uma estratégia que combina inteligência policial, tecnologia e presença dos serviços públicos nos territórios. O plano prevê integração de dados entre forças de segurança e guardas municipais, ampliação do reconhecimento facial, combate às estruturas financeiras do crime organizado e orientações operacionais destinadas a reduzir confrontos em horários de circulação de trabalhadores e estudantes. A candidatura associa ainda a política de segurança à expansão de iluminação pública, saneamento, saúde e escolas de tempo integral nas comunidades.

Douglas Ruas propõe uma linha centrada no reforço das forças policiais e na recuperação de áreas controladas por grupos armados. Entre as medidas apresentadas estão novos concursos para as polícias Militar e Civil, aquisição de veículos blindados e equipamentos, apoio às operações em territórios considerados de maior risco e criação de estruturas especializadas no combate à cobrança ilegal de taxas sobre serviços como transporte, gás e internet.

Anthony Garotinho defende o reforço do policiamento comunitário, a instalação de bases policiais em comunidades e políticas de prevenção dirigidas aos jovens. O seu programa inclui qualificação profissional, cursos técnicos e atividades desportivas e culturais como instrumentos para reduzir o recrutamento de adolescentes por grupos armados. O candidato anunciou também um modelo de ocupação permanente de territórios com uma força policial especializada. A candidatura de Garotinho atravessou uma disputa judicial, tendo o Tribunal Superior Eleitoral autorizado provisoriamente, em 30 de setembro, a continuidade da campanha e a contabilização dos votos até uma decisão definitiva sobre o registo.

William Siri, do PSOL, propõe uma reorganização institucional das forças estaduais, com maior integração entre os órgãos de segurança, prioridade à investigação e à inteligência e redução da letalidade policial. O plano registado para a candidatura prevê protocolos para operações em favelas, integração das bases de dados das polícias e da administração penitenciária, combate à lavagem de dinheiro associada às organizações criminosas e criação de uma Polícia Técnico-Científica autónoma. A candidatura propõe ainda reforçar estruturas de proteção às mulheres vítimas de violência e ampliar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.

Juliete Pantoja, da Unidade Popular, tem defendido uma alteração do modelo de segurança pública e a desmilitarização da polícia. Durante uma sabatina realizada em setembro, a candidata questionou a eficácia da atual aplicação dos recursos estaduais na segurança e defendeu uma reformulação das políticas para o setor.

André Marinho, do Novo, Coronel Busnello, do Missão, e os restantes candidatos também apresentaram propostas para a área ao longo da campanha. No último debate televisivo antes da votação, realizado em 29 de setembro, segurança pública esteve entre os principais temas discutidos por André Marinho, Anthony Garotinho, Douglas Ruas, Eduardo Paes e William Siri, com propostas relacionadas com recuperação territorial, efetivos policiais, reorganização das forças e combate às organizações criminosas.

O debate eleitoral acontece num Estado onde a segurança pública permanece ligada ao controlo territorial exercido por fações do tráfico e milícias, à circulação de armas de guerra, à violência policial e à necessidade de garantir serviços públicos em comunidades sujeitas a confrontos. Na Maré, os acontecimentos de 28 de setembro mostraram novamente como uma operação policial pode produzir efeitos muito além das áreas diretamente ocupadas pelas forças de segurança, afetando escolas, unidades de saúde, transportes e vias que ligam diferentes zonas da Região Metropolitana.

A poucos dias das urnas, os candidatos apresentam estratégias distintas para enfrentar o problema. Há propostas que privilegiam o aumento do efetivo e a ocupação territorial, outras que colocam inteligência, investigação financeira e tecnologia no centro da política de segurança, e projetos que defendem maior integração entre policiamento, serviços públicos e prevenção social. Caberá aos mais de 12 milhões de eleitores aptos no Estado do Rio de Janeiro avaliar essas propostas no próximo dia 4 de outubro.

Ígor Lopes

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