Na terça-feira, 12 de novembro de 2024, a Sala Beijing, no Palácio Presidencial de Cabo Verde, acolheu a conferência intitulada “Amílcar Cabral e a Mudança de Narrativas sobre o Pan-africanismo”, organizada pela Fundação Amílcar Cabral. O evento, que contou com o Alto Patrocínio do Presidente da República, José Maria Neves, teve como principal orador o economista guineense Carlos Lopes, uma das figuras mais destacadas da intelectualidade africana contemporânea.
Durante a conferência, Carlos Lopes sublinhou o papel transformador de Amílcar Cabral no movimento pan-africanista. Segundo o economista, Cabral redefiniu o conceito de pan-africanismo, afastando-o de uma abordagem exclusivamente racial e incorporando uma perspetiva geográfica e cultural, mais adequada à realidade diversa do continente africano. Lopes destacou que, ao reinterpretar o marxismo e rejeitar elementos que não se adequavam ao contexto africano, Cabral colocou a cultura no centro da luta pela independência e dignidade dos povos africanos.
Amílcar Cabral foi uma inspiração para grandes pensadores africanos como Frantz Fanon e Kwame Nkrumah, sendo uma figura central no desenvolvimento das ideias que moldaram a Organização da Unidade Africana (atual União Africana). O legado de Cabral, conforme defendido por Lopes, continua a ser relevante para os desafios contemporâneos de África, sobretudo no que se refere à justiça social e ao desenvolvimento sustentável.
Antes da conferência, Carlos Lopes foi recebido pelo Presidente José Maria Neves, num encontro em que discutiram questões de grande importância, como as alterações climáticas e a relevância do pensamento de Cabral na defesa da sustentabilidade ambiental. Lopes enfatizou os estudos agrários de Cabral como um contributo crucial para uma abordagem inovadora e sustentável da gestão dos recursos naturais no continente africano.
Durante a entrevista à imprensa, Lopes abordou também a situação política em África, destacando a impaciência das juventudes africanas face à ausência de resultados concretos no desenvolvimento. Enfatizou a necessidade de reformas políticas e eleitorais que possam prevenir crises sociais e garantir maior integridade nos processos democráticos.
Outro tema discutido foi a instabilidade política na Guiné-Bissau, onde o economista criticou o adiamento das eleições legislativas e alertou para o desrespeito pelos princípios constitucionais, considerando que tal decisão coloca em risco a legalidade das instituições no país.
Questionado sobre possíveis mudanças na política dos Estados Unidos em relação à África após as eleições, Lopes afirmou que, embora a administração de Donald Trump pudesse trazer alterações, as prioridades relativas ao combate ao terrorismo e à contenção da influência da China não deverão ser significativamente afetadas. No entanto, alertou que debates sobre o clima e o comércio podem ter impactos importantes no continente africano.
A conferência destacou-se pela profundidade das reflexões sobre o legado de Amílcar Cabral e pelos debates sobre os desafios políticos, sociais e económicos que África enfrenta no cenário global atual.
