O Conselho Nacional de Transição (CNT) da Guiné-Bissau anunciou nesta quarta-feira, 15 de julho, o “congelamento prático” das relações diplomáticas com o atual Governo de Cabo Verde, em resposta a críticas feitas pelo executivo cabo-verdiano sobre assuntos internos guineenses.
O comunicado foi lido pelo porta-voz do CNT, Fernando Vaz, e classifica como “intolerável” a intromissão do Governo cabo-verdiano nos assuntos de soberania da Guiné-Bissau, nomeadamente as “ridículas exigências de libertação de atores políticos” detidos no país.
O órgão acusou diretamente o novo primeiro-ministro de Cabo Verde, Francisco Carvalho, de responder a 26 crimes graves, incluindo “falsificação de documentos públicos, abuso de poder, peculato e corrupção passiva”.
Neste âmbito, foi questionada a legitimidade moral do país em questão para falar de justiça, após o próprio chefe do Governo cabo-verdiano ter acusado a justiça do seu país de estar “politizada”.
O CNT acusa “a elite” cabo-verdiana de “subserviência colonial e complexo de inferioridade” e de ter “renegado a sua própria africanidade” ao servir o colonialismo português, lembrando o período entre 1973 e 1980, altura em que, sob “domínio e influência direta” de Cabo Verde, ocorreu “o maior genocídio da história guineense”, com milhares de guineenses “fuzilados e enterrados em valas comuns”.
Crítica de aproximação a Portugal
O CNT criticou a aproximação do Governo cabo-verdiano a Portugal, tendo declarado que, logo após a tomada de posse, os dirigentes cabo-verdianos “correram para Lisboa para se ajoelhar e receber ordens diretas” do ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. Também classificou o atual regime cabo-verdiano como “comunista à deriva e em confusão de papéis”, acusando-o de confundir “o papel de um Estado com cartilhas partidárias de extrema-esquerda”.
Entre outras exigências, o CNT pede que Cabo Verde “retire, de uma vez por todas, as vossas garras dos assuntos internos da Guiné-Bissau” e lembra que o arquipélago “só existe hoje como Estado soberano porque o sangue guineense foi generosamente derramado”.
Foi igualmente afirmado que Cabo Verde “não tem autoridade moral para dar lições a ninguém” e que na CEDEAO o país “é um mero figurante: entra mudo e sai calado porque não paga quotas”.
No entanto, apesar desta rutura diplomática com o Governo, o CNT fez questão de separar os povos, sublinhando que “o povo guineense e o povo cabo-verdiano são e serão sempre irmãos. Essa união secular de sangue e luta não será beliscada por comunistas de meia-tigela que vendem a soberania a potências europeias”.
“Exigimos respeito. À Guiné-Bissau, soberana e livre, ninguém dita ordens”, concluiu Fernando Vaz durante uma conferência de imprensa.
Por: Mamandin Indjai
