A economia da Guiné-Bissau cresceu 5,8% em 2025, impulsionada por uma forte campanha da castanha de caju e por preços agrícolas favoráveis. O desempenho confirmou a resiliência do país, mas expôs também a fragilidade do seu modelo económico: o crescimento continua concentrado numa única cultura, enquanto a produtividade do trabalho recua e o setor privado enfrenta graves dificuldades de financiamento.
O alerta consta da Atualização Económica da Guiné-Bissau, Primavera de 2026, do Banco Mundial, intitulada “Vias para Desbloquear o Crescimento do Setor Privado Impulsionado pela Produtividade”, divulgada esta quarta-feira, 24 de junho, em Bissau.
Segundo o relatório, a inflação caiu para 0,9% em 2025, proporcionando algum alívio às famílias, num contexto de persistente incerteza política. O défice orçamental baixou para 6,5% do PIB, mas a consolidação resultou sobretudo da contenção da despesa e dos cortes no investimento público, não de um aumento estrutural da receita.
A dívida pública situou-se em 75,6% do PIB, acima do limiar definido pela União Económica e Monetária Oeste-Africana. As receitas fiscais continuam entre as mais baixas da região, representando apenas 8,5% do PIB. No setor financeiro, os créditos malparados ultrapassaram 22% em meados de 2025, limitando fortemente a concessão de crédito às Pequenas e Médias Empresas, às empresas lideradas por mulheres e ao setor privado em geral.
“A resiliência ancorada numa única cultura não sustenta prosperidade duradoura”, disse Rosa Brito, representante residente do Banco Mundial. Para ela, o país precisa de um sistema fiscal mais justo, mais acesso a financiamento e de instituições confiáveis.
O relatório evidencia um paradoxo estrutural: há mais empresas a investir, mas a produzir menos por trabalhador. A proporção de empresas que investem em ativos fixos aumentou de 45,1% em 2006 para 61,2% em 2025. No mesmo período, a produtividade do trabalho caiu de 6,2% para -6,8%.
Na prática, as empresas estão a contratar mais trabalhadores sem gerar ganhos proporcionais de produção. O Banco Mundial classifica esta tendência como criação de emprego de baixa qualidade, com impacto limitado nos salários, na eficiência económica e na melhoria das condições de vida.
Entre os principais bloqueios apontados estão a carga fiscal, o acesso limitado ao crédito, a imprevisibilidade institucional, a fragilidade dos tribunais, os constrangimentos alfandegários e a incerteza regulatória. As desigualdades de género no acesso à propriedade empresarial e ao financiamento reduzem ainda mais a base produtiva do país.
Para 2026, o Banco Mundial projeta uma desaceleração do crescimento do PIB para 4,8%, refletindo a redução do investimento e a incerteza política após os acontecimentos de novembro de 2025. O contexto internacional também pesa: os efeitos do conflito no Médio Oriente deverão chegar à Guiné-Bissau através do aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos, que representam, cada um, cerca de 30% das importações, bem como da subida dos custos de transporte marítimo, pressionando as margens de exportação da castanha de caju.
As recomendações passam por alargar a base fiscal, expandir a faturação digital, introduzir um regime simplificado para Pequenas e Médias Empresas, reforçar os sistemas de informação de crédito, criar instrumentos de financiamento direcionados para PME e empresas lideradas por mulheres, modernizar as alfândegas, garantir energia estável e acelerar a implementação da rede nacional de fibra ótica.
“O desafio não é falta de empreendedorismo, é falta de condições para crescer e formalizar”, resumiu Maria Elkhdari, economista do Banco Mundial e autora do estudo. A pobreza extrema deverá cair para 37,8% até 2028, mas a subida dos preços dos alimentos e combustíveis poderá atrasar esse progresso, sobretudo entre as famílias rurais.
A mensagem central do Banco Mundial é clara: a Guiné-Bissau cresce, mas cresce sobre bases frágeis. Sem diversificação económica, instituições previsíveis e crédito acessível, o país continuará dependente do caju e vulnerável a choques políticos, financeiros e internacionais.
