A menos de um mês das eleições gerais de 23 de novembro, a Guiné-Bissau vive uma nova onda de tensões políticas e militares.
Nos últimos dias, foram detidos altos oficiais das forças armadas e registou-se o desaparecimento misterioso de um coronel, o que alimenta suspeitas de purga interna e ajustes de contas no seio do aparelho castrense, precisamente quando o país se prepara para mais um ciclo eleitoral conturbado.
O major Domingos Nhanque, promotor-adjunto do Tribunal Militar Superior, encontra-se detido desde o início da semana, em circunstâncias ainda não esclarecidas.
A detenção do major Domingos Nhanque ocorreu após este ter sido convocado pelo presidente do Tribunal Militar Superior para integrar uma suposta missão conjunta com o Estado-Maior General das Forças Armadas. Desde então, o militar não voltou a ser visto, e o seu paradeiro permanece desconhecido.
Na noite desta quarta-feira (29.10), o brigadeiro-general Daba Naualna, antigo presidente do mesmo tribunal e atual diretor da escola de instrução militar de Cumeré, foi levado por um grupo de militares armados e está desaparecido desde então.
As famílias de ambos tentaram obter informações junto das autoridades, mas nenhum esclarecimento oficial foi prestado.
A estes casos junta-se o desaparecimento suspeito do coronel Júlio Naquidanque, chefe da Direção de Operações e Treino do Estado-Maior do Exército, após ter sido convocado para uma reunião em Bissau. Desde então, não voltou a ser visto nem há registo do seu paradeiro.
O padrão de prisões sem mandado e desaparecimentos sem explicação está a gerar alarme generalizado entre militares e civis, num país habituado a ver as suas forças armadas envolvidas em crises políticas e golpes de Estado.
Clima de repressão e contradições oficiais
Enquanto o Governo insiste em afirmar que as forças armadas estão neutras e prontas para garantir a segurança eleitoral, a sucessão de detenções contradiz o discurso oficial e reforça a perceção de instrumentalização política das instituições militares.
A ausência de transparência, aliada ao silêncio do Estado-Maior General e das instâncias judiciais, agrava o clima de insegurança e desconfiança.
Internamente, há sinais de divisão no seio do exército entre oficiais leais ao regime e outros que manifestam descontentamento com o atual comando e políticas do presidente Umaro Sissoco Embaló.
A manutenção do general Biagué Na Ntan como Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, cargo que ocupa há mais de uma década, tornou-se um ponto de fricção dentro das forças de defesa e segurança.
Várias vozes questionam a longevidade e o poder absoluto de Biagué, apontando a sua permanência como símbolo da falta de renovação e de equidistância institucional das forças armadas em relação ao poder político.
Tensões políticas e o peso das eleições
As detenções coincidem com um momento crítico do processo eleitoral, já marcado por exclusões de coligações e contestação judicial.
A coligação PAI–Terra Ranka, liderada pelo PAIGC e por Domingos Simões Pereira, continua afastada da corrida presidencial e legislativa, enquanto o ambiente político se deteriora.
Oposição e sociedade civil denunciam um clima de medo e controlo político, acentuado pela presença ostensiva de militares nas ruas e pela falta de liberdade de manifestação.
Analistas consideram que o país enfrenta um cenário de militarização discreta, mas progressiva, no qual as fronteiras entre poder político, justiça e defesa se tornam cada vez mais difusas.
A ausência de respostas das autoridades sobre as recentes detenções e desaparecimentos mina a credibilidade do Estado de direito e lança dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral.
