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Guiné-Bissau: Jurista acusa CEDEAO de falta de coerência

O jurista e investigador guineense Fode Mané acusa a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) de falta de coerência e de fragilidade institucional ao voltar a designar o Presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, como mediador da crise política na Guiné-Bissau.

O analista disse à rádio Capital FM que a decisão tomada na cimeira de 14 de dezembro de 2025 demonstra a desorientação da organização regional. Segundo o próprio, naquela reunião foram aprovadas várias resoluções que deveriam servir de base para o encontro seguinte, o que não se verificou.

“Isso mostra que a CEDEAO não tem coerência nem princípios na forma como trabalha”, afirmou.

Para Fode Mané, a recondução de Diomaye Faye para uma função que já exercia, sem apresentação de relatório sobre o trabalho anterior, evidencia a rutura entre os dois encontros. 

“Bassirou Diomaye Faye foi novamente escolhido para desempenhar uma função que já exercia, sem que tivesse apresentado um relatório sobre o trabalho realizado. Não existe ligação entre a cimeira anterior e a atual, o que revela uma clara desorientação”, disse.

Presidente do Senegal envolvido na saída do homólogo da Guiné-Bissau

O jurista lembrou ainda o envolvimento do chefe de Estado senegalês na saída do Presidente Umaro Sissoco Embaló de Bissau para o Senegal e criticou a ausência de esclarecimentos públicos acerca do episódio. 

“Um mediador deve prestar contas das suas ações, mas isso não aconteceu. Também nunca procurou dialogar com todas as partes envolvidas, limitando-se a falar com os militares que estão no poder”, sustentou.

Fode Mané considera que Diomaye Faye não reúne as condições necessárias para conduzir uma mediação imparcial. A seu ver, a situação política interna no Senegal retira força ao Presidente senegalês para intervir na Guiné-Bissau. 

“A situação política que enfrenta no Senegal não o coloca numa posição de força para mediar a crise guineense. No seu próprio país é associado a interesses políticos e, por isso, não pode ser considerado um mediador neutro, imparcial e credível”, declarou.

Críticas à CEDEAO e caso Domingos Simões Pereira

Mané estendeu as críticas ao funcionamento da CEDEAO, ao dizer que a organização “está cada vez mais fragilizada e vulnerável à influência de interesses externos”. Segundo ele, tal compromete a credibilidade da organização na gestão da crise guineense.

No que diz respeito à detenção do líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, o jurista manifestou preocupação e classificou o caso como uma tentativa de silenciar vozes críticas.

“O problema da Guiné-Bissau exige um profundo conhecimento da realidade do país e a aplicação rigorosa das regras democráticas. No caso de Domingos Simões Pereira, estamos preocupados não apenas com o que ele representa politicamente, mas também com a mensagem que as instituições estão a transmitir com a sua detenção”, sublinhou.

O analista apontou ainda uma suposta cumplicidade do antigo presidente da Comissão Nacional de Eleições ao defender que o mandato do Presidente Umaro Sissoco Embaló não terminaria automaticamente aos cinco anos, ficando dependente de decisão do Supremo Tribunal de Justiça.

“Tudo isto faz parte de uma estratégia para silenciar Domingos Simões Pereira e outras vozes críticas. É lamentável que a CEDEAO não exija um diálogo verdadeiro nem promova encontros com a sociedade civil e a Liga Guineense dos Direitos Humanos. Continuam a existir restrições à liberdade de circulação e um clima de insegurança, com pessoas armadas que não pertencem às Forças Armadas a cometer crimes sem que haja investigações”, finalizou.

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