O quarto Recenseamento Geral da População e Habitação na Guiné-Bissau arrancou em todo o país a 1 de junho, num ambiente marcado por várias interrogações levantadas no seio da Primatura e da Presidência da República. O impasse com alguns agentes formadores terá sido resolvido apenas através de um acordo, mas a participação dos cidadãos, num momento político particularmente controverso, continua a ser outro fator de preocupação para as autoridades.
As questões políticas que poderão influenciar a adesão da população parecem ter sido uma das principais preocupações do Primeiro-Ministro, Ilídio Vieira Té, e de Horta Inta-a, Presidente de Transição.
No dia 2 de junho, o Presidente da República de Transição pediu a colaboração de todos os guineenses e dos estrangeiros residentes no país no processo de recolha de informações pelos recenseadores. O apelo de Horta Inta-a foi feito momentos depois de ter sido inscrito como o primeiro cidadão guineense neste recenseamento.
Inta-a não tem dúvidas de que a validade do recenseamento dependerá da participação massiva da população, defendendo que cada cidadão conta e que cada informação recolhida contribuirá para o planeamento de um futuro melhor para a Guiné-Bissau.
Ao presidir à cerimónia de abertura do recenseamento, o Primeiro-Ministro Ilídio Té apelou à sociedade para que não politize o processo, sublinhando que se trata de um instrumento destinado a permitir ao Governo recolher dados para uma melhor planificação do desenvolvimento.
“Os trabalhos do 4º Recenseamento Geral da População e Habitação que estão em curso no país não têm nada a ver com a política. Trata-se de um trabalho que irá permitir que o governo consiga ter o número exato da sua população e conhecer de perto em que condições vivem os seus cidadãos”, afiançou Ilídio Vieira Té.
Num tom dirigido diretamente à população, Vieira Té afirmou, no seu discurso, que os dados recolhidos no âmbito deste recenseamento não terão qualquer finalidade fiscal, policial ou judicial, garantindo que todas as informações serão estritamente confidenciais e protegidas por lei.
“Nenhum dado individual será utilizado para fins que não sejam estatísticos. Os cidadãos devem confiar e colaborar para receber os agentes recenseadores e responder com sinceridade e sentido de responsabilidade”, aconselhou.
A reticência do chefe do Governo terá sido provocada pelo ambiente político que o país atravessa. Desde o alegado golpe de 26 de novembro de 2025, as atividades políticas na Guiné-Bissau foram praticamente suspensas. A situação agravou-se com a colocação do presidente da Assembleia Nacional Popular em prisão domiciliária há cerca de seis meses e com a contestação do candidato considerado pelos seus apoiantes como “vencedor das eleições”, respetivamente Domingos Simões Pereira e Fernando Dias.
O receio das autoridades situa-se em torno de um eventual apelo contra o recenseamento por parte destas duas vozes políticas, o que poderia ser suficiente para afetar profundamente a credibilidade do processo.
Para já, o que existe é a vigilância apertada da oposição sobre o recenseamento, com o objetivo declarado de evitar eventuais manobras do atual poder político para obter dados suscetíveis de favorecer a sua posição em futuros processos eleitorais.
A forma precipitada e determinada com que o Governo está a acelerar o processo alimenta suspeitas e coloca toda a oposição política em estado de alerta.
