O debate sobre a reintrodução do serviço militar obrigatório está a ganhar força na Alemanha, com crescentes apelos políticos à medida como resposta ao agravamento do contexto de segurança na Europa.
No início de março, o porta-voz de defesa da União (CDU/CSU), Florian Hahn, defendeu o regresso do serviço obrigatório até ao final do ano, afirmando que o país não pode “ficar de braços cruzados” perante o aumento da instabilidade global.
O tema regressa à agenda após a aprovação de um fundo especial para defesa e infraestruturas no Bundestag.
O serviço militar obrigatório está previsto na Lei Fundamental alemã desde 1956, embora tenha sido suspenso em 2011 por decisão do então ministro da Defesa Karl-Theodor zu Guttenberg. Na altura, a medida visava reduzir o efetivo das forças armadas e refletia uma avaliação de menor risco geopolítico.
Atualmente, a Bundeswehr conta com cerca de 261 mil membros, entre militares e civis, mas prevê-se um aumento para 203 mil soldados até 2031. Este reforço é justificado pela guerra na Ucrânia e pela nova realidade de segurança europeia. No entanto, especialistas alertam para os desafios da reativação do serviço obrigatório.
O politólogo Frank Sauer, da Universidade Bundeswehr, considera legalmente viável a reintrodução, mas alerta para a falta de capacidade prática. Segundo o académico, a infraestrutura de recrutamento foi desmantelada e não existem meios logísticos, instrutores ou instalações para acolher novos recrutas.
Além disso, Sauer defende que é necessário um debate claro sobre os objetivos do serviço obrigatório, alertando que a medida não deve ser vista como uma solução rápida para os problemas de pessoal da Bundeswehr.
Ademais, também não há consenso político sobre o modelo a adotar: enquanto a CDU/CSU defende a sua reintrodução como forma de dissuasão, o SPD propõe manter o modelo voluntário com registo obrigatório.
A discussão estende-se à sociedade alemã.
Uma sondagem da YouGov revela que 58% da população apoia a reintrodução do serviço militar obrigatório, embora a maioria dos jovens entre os 18 e os 29 anos (61%) se mostre contra.
Comparativamente, em França, 62% apoiam o regresso do serviço militar, abolido em 1997, e mais de metade dos jovens dizem estar dispostos a combater se necessário.
Apesar de o tema ganhar destaque, não há ainda uma proposta concreta sobre o formato ou calendário da reintrodução.
O consenso atual é apenas um: qualquer decisão exigirá tempo, planeamento e um debate alargado na sociedade e no Parlamento.
