O que antes era visto como um instrumento de empoderamento tornou-se, para milhões de mulheres e raparigas, uma fonte de medo. Impulsionado pela inteligência artificial (IA), pelo anonimato e pela fraca responsabilização, o abuso online está a intensificar-se rapidamente, enquanto menos de 40% dos países dispõem de leis específicas para combater o assédio cibernético. De acordo com a ONU Mulheres, cerca de 1,8 mil milhões de mulheres e raparigas continuam sem proteção legal contra a violência digital.
O espaço digital transformou-se numa frente crucial na luta pela igualdade de género. Mulheres líderes, jornalistas, ativistas e figuras públicas enfrentam campanhas coordenadas de desinformação sexista, ataques com deepfakes e assédio sistemático destinado a silenciar vozes femininas e a afastá-las da esfera pública. Uma em cada quatro jornalistas afirma ter recebido ameaças de morte online. “O que começa na internet não fica na internet”, alertou Sima Bahous, diretora-executiva da ONU Mulheres, sublinhando que a violência digital se transfere para a vida real e, nos casos mais graves, pode conduzir a agressões físicas e feminicídio.
O avanço da IA amplificou drasticamente estas formas de abuso, tornando-as mais rápidas, direcionadas e difíceis de detetar. Estima-se que 95% dos deepfakes disponibilizados online sejam conteúdos pornográficos não consentidos, sendo 99% das vítimas mulheres. Muitas ferramentas de deepfake, desenvolvidas maioritariamente por equipas masculinas, nem sequer funcionam adequadamente com imagens de homens, revelando um viés sexista na própria tecnologia. A ONU Mulheres insta as empresas tecnológicas a reforçar a segurança das plataformas, contratar mais mulheres, remover rapidamente conteúdos abusivos e responder de forma eficaz às denúncias.
Embora vários países estejam a avançar com legislação — como a Lei de Segurança Online do Reino Unido, a Lei Olimpia no México, medidas na Austrália e a nova Lei de Segurança Digital da União Europeia —, os progressos continuam desiguais.
Para a ONU Mulheres, a prevenção deve ir além da punição: requer alfabetização digital, mudanças culturais profundas e uma governação tecnológica centrada na igualdade. De 25 de novembro a 10 de dezembro, a campanha #NãoHáDesculpa apela à mobilização global para travar a violência digital contra mulheres e raparigas.
