A Síria tem assistido à maior onda de violência desde o fim da guerra civil em vários pontos do país, que teve o seu início na quinta-feira passada na Província de Lataquia, quando apoiantes do ditador deposto Bashar al-Assad coordenaram uma série de emboscadas e ataques contra forças de segurança Síria.
De acordo com o governo Sírio, esta operação foi organizada por militantes alauitas ligados a Assad. As forças oficiais Sírias retaliaram prontamente com ataques armados nas cidades de Lataquia, Tartous, Jableh e Banias, resultando em confrontos violentos e consequentemente em várias centenas de mortos no espaço de um dia, inclusive 148 combatentes pró-Assad e cerca de 125 membros das forças do novo Governo Sírio.
Os confrontos aumentaram de intensidade e rapidamente resvalaram para atos de vingança contra as minorias alauitas, com execuções sumárias de civis desarmados nos respetivos bairros e casas. Durante os primeiros 4 dias de confrontos, inúmeros vídeos e fotos de conteúdo extremamente gráfico encheram as redes sociais, ilustrando a escala de violência sanguinária com execuções e tortura perpetradas contra civis inocentes (incluindo mulheres e crianças), em atos descritos por pessoas locais como sendo ataques feitos não por membros pertencentes ao governo Sírio mas sim por militantes terroristas.
Muitos destes assassínios foram realizados de porta em porta, após os atacantes identificarem as vítimas como membros Alauitas. Outros grupos religiosos foram também apanhados na onda de violência mortal, incluindo Cristãos e Sunitas, cujas chacinas causaram mais de mil mortos.
Alguns civis conseguiram escapar aos ataques e encontraram abrigo na base militar de Hmeimim, controlada pelas forças Russas, que ainda permanecem em território Sírio. Cerca de 10 mil Sírios fugiram para o Líbano (muitos deles acolhidos por ativistas locais) por rotas ilegais a partir da fronteira com a região Libanesa nortenha de Akkar. Estima-se que os números de Sírios a buscar refúgio dentro do Líbano possam aumentar significativamente nos próximos dias dada a instabilidade vivida na Síria.
No Domingo, civis e ativistas organizaram uma vigília solene na Praça Marjeh no centro de Damasco para condenar os massacres. O protesto pacífico foi abruptamente interrompido quando alguns agitantes insultaram e agrediram os participantes, levando a uma intervenção rápida das forças de segurança geral Sírias, que dispersaram a multidão.
Entretanto, o Presidente interino Sirio Ahmed Al-Sharaa fez alguns depoimentos oficiais onde apelou à calma, à unidade nacional e paz interna, prometendo também deter e castigar devidamente todos os responsáveis pela violência extrema registada nos últimos dias. Ainda no Domingo, a Presidência Síria emitiu decretos com a formação de dois comités (um judicial para investigar os incidentes e levar os criminosos à justiça, e um comité supremo para garantir a paz civil).
Apesar dos desafios de unificar a nação, reforçar a segurança pública, evitar a expansão das ofensivas Israelitas no sul e mitigar possíveis ondas de violência que poderão redundar numa nova guerra civil num futuro próximo, Al-Sharaa mostra-se confiante nesta nova fase sócio-política; na segunda-feira desta semana, o seu executivo assinou um acordo com as Forças Democráticas Sírias (lideradas pelos Curdos, que controlam o nordeste do país) que proporcionará mais poder administrativo a Damasco e reforçará a esfera de influência nacional por parte deste novo governo Sírio.
João Sousa, a partir do Líbano para a e-Global
