“Zambo! Zambo! Zambo!” – Ecoam cânticos pelas estreitas ruelas da Mina, zona portuária da cidade libanesa de Tripoli, na última manhã antes da Quaresma Ortodoxa. Vislumbram-se várias dezenas de figuras humanas em negro, que marcham e dançam ao ritmo de tambores e do som frenético do mizmar, um instrumento de sopro tradicional do Líbano.

Os corpos estão cobertos de tinta preta e dourada, as faces ocultadas por máscaras dos mais variados estilos e temas, numa comunhão festiva em tom caótico e efusivo. Estamos no epicentro de uma das celebrações mais raras e peculiares e, certamente, a mais singular tradição da Quaresma Ortodoxa no Líbano: Zambo.
Parece não haver consenso entre os participantes e locais relativamente à génese ou verdadeiro significado desta celebração, que conta com cerca de 100 anos de existência. Muitos atribuem-na à influência dos gregos cristãos ortodoxos (agora uma minoria religiosa nesta cidade nortenha). Outros apontam para a inspiração do Carnaval do Rio de Janeiro e dos membros da diáspora libanesa no Brasil que regressaram a Tripoli. Há ainda a teoria que a presença dos soldados senegaleses, nesta região, no fim da Primeira Guerra Mundial, terá sido o mote para os locais pintarem a pele de negro.
Contudo, para os tripolotanos, o significado ou a origem do Zambo parecem ser remetidos para segundo plano. O importante é participar de forma fervorosa e exuberante nestes festejos espontâneos e improvisados de rua, que duram várias horas antes do inevitável desfecho: um merecido mergulho no Mediterrâneo, como símbolo de purificação e a necessária ação de lavar a tinta do corpo.
Apesar da associação à tradição cristã ortodoxa, o Zambo tem atraído membros de outros grupos religiosos, e até de alguns turistas e repórteres estrangeiros, que veem nesta celebração uma oportunidade para participar num evento verdadeiramente insólito. Porém, acima de tudo, o Zambo representa uma ocasião festiva para aglomerar os habitantes locais – tanto os ‘atores’, que encarnam as mais variadas personagens, desde guerreiros africanos, vikings, índios americanos e lobisomens, como os residentes que observam com curiosidade e que, esporadicamente, participam na festa com danças e cânticos (e por vezes até fazendo doações ao grupo).
Independentemente da sua história pouco nítida ou das circunstâncias voláteis da atualidade libanesa, a resiliência do Zambo parece ser uma garantia de manutenção e passagem da tradição para as futuras gerações.
João Sousa