Um novo estudo científico alerta para a possibilidade de o glifosato, um dos herbicidas mais utilizados no mundo, estar a favorecer a sobrevivência e disseminação de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos. A investigação, publicada na revista Frontiers in Microbiology, concluiu que algumas das bactérias multirresistentes mais comuns em ambiente hospitalar também apresentam elevada resistência ao glifosato, levantando preocupações sobre o papel dos herbicidas na expansão da resistência antimicrobiana.
A resistência antimicrobiana é atualmente considerada uma das maiores ameaças à saúde pública global, estando associada a cerca de 1,1 a 1,4 milhões de mortes por ano. Embora este fenómeno seja geralmente atribuído ao uso excessivo ou inadequado de antibióticos, os investigadores defendem que fatores ambientais, incluindo determinados produtos químicos agrícolas, podem igualmente contribuir para a seleção e propagação de microrganismos resistentes.
No estudo, cientistas analisaram mais de uma centena de estirpes bacterianas recolhidas em hospitais, explorações agrícolas e numa reserva natural no delta do Paraná, na Argentina. Os resultados revelaram que todas as bactérias hospitalares testadas apresentavam elevada resistência ao glifosato e a herbicidas à base desta substância. Além disso, foram encontradas bactérias resistentes ao herbicida em ambientes onde o produto nunca tinha sido aplicado diretamente, sugerindo uma possível disseminação através da água e de outros mecanismos ambientais.
Os investigadores observaram ainda que bactérias geneticamente semelhantes apresentavam resistência ao glifosato independentemente da sua origem, fosse ela hospitalar, agrícola ou ambiental. Segundo os autores, esta constatação reforça a hipótese de que a utilização intensiva do herbicida possa criar condições favoráveis à sobrevivência de microrganismos resistentes, facilitando a circulação de genes de resistência entre diferentes ecossistemas.
Os resultados reacendem o debate em torno do glifosato, já alvo de controvérsia devido aos seus potenciais impactos ambientais e para a saúde humana. Os investigadores defendem que as autoridades reguladoras passem a incluir avaliações sobre a possível co-seleção de resistência a antibióticos nos processos de aprovação de pesticidas. Embora o estudo não estabeleça uma relação direta de causa e efeito entre o uso do glifosato e o aumento das infeções resistentes, os autores consideram que as evidências justificam uma análise mais aprofundada dos riscos associados à utilização generalizada deste herbicida.
