Num contexto político marcado por fortes debates sobre emprego, juventude e desenvolvimento regional, João Brito, cabeça de lista do PAICV por Santiago Norte às Legislativas de 2026, defende que Cabo Verde precisa urgentemente de uma nova visão governativa centrada nas pessoas e nas necessidades reais das famílias. Economista, professor universitário e natural de Achada Falcão, o candidato afirma que decidiu avançar para a política ativa apenas quando sentiu que tinha preparação suficiente para contribuir de forma séria e responsável para o país. Ao longo da entrevista ao Jornal E-Global, apresentou críticas diretas ao atual Governo, apontou o abandono de Santiago Norte e defendeu medidas estruturantes para travar a saída massiva de jovens cabo-verdianos.
Durante a conversa, João Brito mostrou-se convicto de que o país vive um momento decisivo e considerou que as dificuldades enfrentadas pela população já não podem ser escondidas atrás de estatísticas positivas. Segundo o candidato do PAICV, existe um sentimento crescente de desânimo entre os jovens, sobretudo pela falta de oportunidades de emprego, pelas dificuldades económicas e pela ausência de políticas capazes de garantir estabilidade social. “As pessoas estão cansadas de ouvir promessas. Hoje, o cabo-verdiano quer sentir melhorias concretas na sua vida e quer voltar a acreditar no futuro do país”, afirmou.
Ao recordar o seu percurso pessoal, João Brito explicou que cresceu numa família humilde e que a realidade vivida durante a infância influenciou profundamente a sua forma de ver a política e a sociedade. Depois da morte do pai, a família mudou-se para Assomada, onde a mãe conseguiu emprego na Conservatória do Registo Civil, permitindo-lhes reconstruir a vida em Pedra Barro. Foi precisamente naquela comunidade que, segundo contou, desenvolveu uma ligação muito próxima com as pessoas, participando em atividades juvenis e convivendo diariamente com as dificuldades enfrentadas pelas famílias locais.
“Pedra Barro moldou a pessoa que sou hoje. Cresci numa comunidade simples, onde as pessoas aprendiam desde cedo a ajudar-se mutuamente e a enfrentar as dificuldades com união”, declarou. O candidato acrescentou ainda que foi nesse ambiente de solidariedade e partilha que começou a desenvolver uma sensibilidade social mais forte, algo que mais tarde o levou a identificar-se com políticas de esquerda. Segundo explicou, a preocupação constante com o bem-estar coletivo e com as pessoas mais vulneráveis tornou-se um princípio central da sua visão política.
Com formação avançada em Economia, incluindo mestrado e doutoramento, João Brito defende que a política exige preparação técnica, conhecimento e sentido de responsabilidade. Por isso, garante que preferiu consolidar primeiro a sua experiência académica e profissional antes de assumir funções políticas de maior exposição. Além da carreira universitária, destacou também o trabalho desenvolvido no Banco Central, em bancos comerciais e em cargos de gestão, experiências que considera fundamentais para compreender os desafios económicos enfrentados por Cabo Verde.
Ao justificar a sua entrada na disputa eleitoral, João Brito afirmou que sente a necessidade de contribuir diretamente para a construção de políticas públicas mais eficazes, sobretudo num momento em que, segundo diz, o país enfrenta sinais preocupantes de desgaste social e económico. “Eu sempre vi a política como um espaço de serviço e não de benefício pessoal. Só decidi dar este passo porque acredito que hoje tenho experiência suficiente para contribuir verdadeiramente para Cabo Verde”, afirmou o candidato, sublinhando que a sua candidatura nasce de uma vontade de ajudar a transformar o país.
Grande parte da entrevista foi marcada por críticas ao atual Governo, que João Brito acusa de não implementar políticas estruturantes para Santiago Norte. Na sua perspetiva, a região continua esquecida e sem investimentos capazes de dinamizar verdadeiramente a economia local, sobretudo nos setores considerados estratégicos, como agricultura, pescas e turismo rural. Segundo explicou, o problema não está apenas na falta de recursos, mas principalmente na ausência de visão política integrada para o desenvolvimento regional.
“O Governo abandonou Santiago Norte e isso é sentido diariamente pela população. Há agricultores sem apoio, jovens sem emprego e pequenos comerciantes a enfrentar enormes dificuldades para sobreviver”, criticou. O candidato defendeu ainda que o Estado deve olhar para Santiago Norte como uma região com enorme potencial económico e humano, lembrando que a área concentra cerca de 38% da população da ilha de Santiago. Para João Brito, essa dimensão populacional demonstra claramente que a região precisa de investimentos muito mais ambiciosos.
Ao abordar a situação da juventude, o cabeça de lista do PAICV demonstrou forte preocupação com o aumento da imigração e com o sentimento de descrença vivido pelos jovens cabo-verdianos. Segundo afirmou, muitos estudantes universitários já planeiam deixar o país assim que concluírem a formação académica, algo que considera extremamente preocupante para o futuro de Cabo Verde. Para o candidato, essa realidade representa uma consequência direta da falta de oportunidades e da incapacidade do Governo em criar perspetivas concretas para a nova geração.
“Os jovens estão a abandonar Cabo Verde porque perderam a esperança. Quando um estudante termina o curso já a pensar em emigrar, isso significa que o país está a falhar com a sua juventude”, declarou. Nesse sentido, João Brito defendeu medidas como universidade gratuita, programas de empreendedorismo, fundos regionais de apoio ao emprego jovem e maior incentivo à contratação local. Segundo explicou, é necessário criar condições reais para que os jovens possam construir projetos de vida dentro do próprio país.
Além das questões económicas, João Brito alertou também para problemas sociais que, na sua opinião, afetam diretamente os jovens, nomeadamente o consumo excessivo de álcool, drogas e o aumento da delinquência. Para enfrentar essa realidade, defendeu maior investimento em desporto, cultura, formação profissional e ocupação saudável do tempo livre. “Não podemos apenas apontar problemas. Precisamos criar alternativas e oferecer oportunidades concretas para os jovens crescerem com dignidade”, afirmou.
No plano económico, o candidato considera que Santiago Norte vive atualmente um período de forte desaceleração, situação visível sobretudo no pequeno comércio e nas atividades informais. Segundo contou, durante a campanha ouviu repetidamente comerciantes a queixarem-se da redução do consumo, da diminuição do movimento e da saída constante de clientes devido à imigração. Para João Brito, essa realidade demonstra que a economia local perdeu dinamismo e precisa urgentemente de estímulos estruturados.
“Hoje muitos pequenos negócios sobrevivem com enorme dificuldade porque as pessoas emigraram ou perderam poder de compra. Há menos circulação de dinheiro e isso afeta diretamente toda a economia local”, explicou. Como resposta, o candidato defende a criação de incentivos fiscais, programas de apoio às pequenas empresas e maior financiamento para agricultores, pescadores e empreendedores. Entre as propostas destacadas está a criação do Banco AgroAzul, pensado para facilitar o acesso ao crédito nos setores produtivos.
Questionado sobre governação e transparência, João Brito afirmou que Cabo Verde precisa reforçar os mecanismos de fiscalização e responsabilização na administração pública. Segundo o candidato, a falta de consequências em determinados casos contribui para aumentar a desconfiança da população em relação às instituições e à classe política. Para ele, a gestão pública deve ser conduzida com maior rigor, sobretudo porque envolve recursos pertencentes a todos os cabo-verdianos.
“As pessoas precisam sentir que existe responsabilidade na gestão pública. Quem administra recursos do Estado deve responder pelos seus atos e deve trabalhar sempre com transparência”, defendeu. João Brito acrescentou ainda que o Parlamento precisa assumir uma postura mais firme na fiscalização do Governo, garantindo maior independência e capacidade crítica diante das decisões do executivo.
Apesar das críticas dirigidas ao atual Governo, o candidato do PAICV garantiu estar disponível para o diálogo político caso o partido não consiga maioria parlamentar. Segundo explicou, a prioridade deve ser sempre a defesa do interesse nacional e do bem-estar da população. “Se for necessário negociar para proteger os interesses do povo cabo-verdiano, estarei sempre disponível para dialogar”, afirmou.
Já sobre a campanha eleitoral, João Brito revelou sentir um ambiente positivo e uma forte adesão popular às propostas do PAICV em Santiago Norte. Segundo contou, o contacto direto com a população tem demonstrado um crescente desejo de mudança política e maior esperança numa nova governação. O candidato acredita, inclusive, que o partido poderá alcançar um resultado histórico no círculo eleitoral da região.
“Estamos a sentir uma enorme vontade de mudança nas ruas. As pessoas querem um Cabo Verde mais justo, mais equilibrado e com oportunidades para todos”, declarou. Ainda assim, João Brito afirmou que encara a política com humildade e garantiu que respeitará qualquer resultado das urnas. Para o economista, o mais importante é manter o compromisso de trabalhar em defesa da população e contribuir para o desenvolvimento do país.
No final da entrevista, deixou uma mensagem dirigida aos eleitores de Santiago Norte e de Cabo Verde, defendendo que o país precisa recuperar a confiança coletiva e voltar a acreditar no futuro. “Quero que as pessoas saibam que estou nesta luta por convicção e por sentido de missão. Acredito sinceramente que Cabo Verde pode voltar a ser um país de oportunidades para todos”, concluiu.
