O candidato independente afirma que “a verdade sobre o país está a ser sufocada” e promete investigar a morte de Kumba Ialá.
O candidato presidencial Fernando Dias da Costa, apoiado pelas coligações Plataforma da Aliança Inclusiva – PAI Terra Ranka e Aliança Patriótica Inclusiva – Cabas Garandi (API), voltou a colocar-se no centro do debate político ao denunciar as recentes detenções de oficiais balantas acusados de envolvimento numa alegada tentativa de golpe de Estado.
Durante um encontro realizado esta terça-feira, 4 de novembro de 2025, na localidade de Matu Dinghal, na seção de João Landim, região de Biombo, Fernando Dias questionou publicamente os critérios que presidiram às detenções. “Será que apenas os balantas são capazes de golpes de Estado? Outros grupos étnicos não têm o mesmo peso nas decisões do país?”, ironizou, num tom crítico em relação ao que descreveu como “discriminação política disfarçada de justiça militar”.
O Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) anunciara, a 31 de outubro, a descoberta de um plano de subversão, atribuindo a sua liderança ao brigadeiro-general Daba Naualna, diretor da Escola de Instrução Militar de Cumeré. O comando militar confirmou também a detenção de vários oficiais superiores, maioritariamente pertencentes à etnia balanta, um facto que reabriu o debate sobre o papel das Forças Armadas e o peso das clivagens étnicas na vida política guineense.
Para Fernando Dias o país vive “um ambiente fabricado de medo e desconfiança”, onde as instituições são usadas como instrumentos de controlo político. “Criam problemas todos os dias para distrair o povo e esconder as suas próprias falhas. Isto não é justiça, é manipulação”, acusou.
O candidato alertou ainda para o silêncio cúmplice de figuras políticas que, segundo ele, “se dizem defensoras da unidade nacional, mas permanecem caladas diante da injustiça”. “Oficiais balantas estão a ser detidos e alguns morrem nas celas sem julgamento. Onde estão agora os que afirmam amar os balantas?”, questionou.
Em tom pessoal, Dias evocou episódios familiares e políticos, sublinhando que as arbitrariedades se tornaram rotina. “Calamo-nos quando prenderam o primeiro, calamo-nos quando prenderam o segundo, e agora ameaçam prender até os amigos. Até quando vamos fingir que isto é normal?”, lamentou.
O candidato independente, que mantém ligação histórica ao Partido da Renovação Social (PRS), evocou igualmente a memória de Kumba Ialá, antigo Presidente da República e figura central da história política recente da Guiné-Bissau. “Aqueles que marcharam com Kumba Ialá perderam a coragem desde que ele partiu. Até hoje não tiveram a decência de ir buscar a sua ‘cabas di sorti’”, declarou, utilizando uma expressão popular em balanta alusiva ao destino inacabado.
Encerrando o seu discurso, Fernando Dias prometeu abrir uma investigação sobre a morte de Kumba Ialá, falecido em 2014 em circunstâncias que ainda alimentam controvérsia. “Se um irmão ou um filho morre de repente, há que procurar a verdade. Eu, como Presidente, ordenarei uma investigação transparente sobre a morte de Kumba Ialá”, assegurou, falando em dialeto balanta.
As declarações do candidato ocorrem num momento de crescentes tensões entre o poder político e os setores militares, após as detenções anunciadas pelo EMGFA. A dimensão étnica associada ao caso reacende um tema sensível na Guiné-Bissau, o equilíbrio de poder entre grupos comunitários e o papel das Forças Armadas como árbitro informal da vida política nacional.
