O Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) da Guiné-Bissau anunciou, em conferência de imprensa realizada no quartel-general da Amura, esta sexta-feira (31.10), a deteção de uma alegada operação de subversão militar.
A tentativa de golpe teria sido urdida a partir do Centro de Formação Militar de Cumeré, envolvendo, segundo o comando, o brigadeiro-general Daba Naualna, atual diretor da Escola de Instrução Militar “General Biagué Na N’Tan”, com o apoio de determinados atores políticos nacionais.
O vice-chefe do Estado-Maior General, general Mamadu “Nkrumah” Turé, afirmou, na conferência de imprensa, que as Forças Armadas permanecem em estado de prontidão, assegurando que todas as unidades estão instruídas para preservar a estabilidade institucional e a ordem constitucional.
O general Daba Naualna foi detido na noite de 29 de outubro, em Cumeré, encontrando-se sob custódia militar, sem divulgação oficial dos fundamentos da detenção.
A captura do brigadeiro ocorreu poucas horas após a apreensão do major Domingos Nhanque, promotor-adjunto da Justiça junto do Tribunal Superior Militar, o que indica uma operação coordenada de neutralização dentro da estrutura castrense.
Durante a mesma conferência, o general Nkrumah Turé confirmou que as investigações estão em curso, prometendo deter “todos os implicados”, independentemente da sua patente ou filiação política.
Velhas rivalidades internas
Apontado como um dos oficiais mais experientes da chamada “ala intelectual” das Forças Armadas, o brigadeiro-general Daba Naualna, ex-presidente do Tribunal Militar Superior (2018–2022), foi afastado no auge de uma disputa latente entre correntes internas. A sua posterior colocação em Cumeré, sob o pretexto de direção da instrução militar, é interpretada nos meios castrenses como medida de afastamento e vigilância, especialmente após os acontecimentos de 1 de fevereiro de 2022, quando uma tentativa de golpe de Estado deixou o país em alerta máximo.
Fontes militares referem que o general não gozava de autonomia operacional e que a sua permanência em Cumeré tinha caráter disciplinar e de contenção estratégica, tendo o seu nome sido, entretanto, mencionado em círculos internos como potencial sucessor do chefe do EMGFA, general Biagué Na N’Tan, cuja reforma tem sido sucessivamente adiada, apesar de já ter ultrapassado o limite de idade regulamentar.
Outros nomes emergem nesta disputa pela sucessão do chefe do EMGFA, nomeadamente o próprio general Mamadu “Nkrumah” Turé, atual vice-chefe do Estado-Maior, e o general Sandji Fati, tido como próximo do Presidente da República, mas fragilizado pela sua crescente impopularidade nas fileiras.
No seio militar, a detenção de Daba Naualna e Domingos Nhanque não causou surpresa, sendo vista como mais um movimento de saneamento interno e de recomposição da hierarquia de comando sob o pretexto de “segurança da instituição” e “preparação de Golpe de Estado”.
Um exército fragmentado
O quadro atual das Forças Armadas guineenses é marcado por fissuras internas, rivalidades hierárquicas e lealdades divididas. A instituição militar, longe de se apresentar como bloco monolítico, permanece permeável às disputas políticas e às agendas pessoais. A ausência de uma doutrina institucional consolidada e a fragilidade do sistema de justiça militar têm levado a que divergências estratégicas se resolvam nos quartéis em vez de nos fóruns políticos.
Os episódios de 2009, 2012 e 2022 são lembrados como precedentes diretos deste padrão de instabilidade, marcados por purgas internas, detenções seletivas e processos inconclusos. Cada nova denúncia de conspiração reforça o ambiente de desconfiança, transformando a vigilância e o medo em rotina operacional no seio da tropa.
Uma democracia permanentemente em suspensão
O equilíbrio entre o poder político e o poder fardado permanece frágil e volátil. Enquanto o Presidente Umaro Sissoco Embaló procura consolidar autoridade e reduzir margens de ação da oposição, as Forças Armadas mantêm-se como árbitro ruidosamente silencioso e, por vezes, imprevisível, um papel que, em vez de garantir estabilidade, alimenta o desequilíbrio de forças entre chefias e subalternos.
Neste contexto, a detenção de Daba Naualna e as declarações recentes de do presidente Umaro Sissoco Embaló, insinuando a implicação de Domingos Simões Pereira na tentativa de golpe de fevereiro de 2022, inserem-se numa lógica de reafirmação de comando, onde o discurso do “golpe iminente” serve para consolidar poder político sob cobertura de segurança nacional.
A Guiné-Bissau continua, assim, numa zona cinzenta entre o passado militarista e a promessa de um Estado de Direito efetivo.
A linha entre defesa da soberania e instrumentalização política do exército torna-se cada vez mais ténue, enquanto a militarização subliminal do discurso político ameaça prolongar o ciclo de governação sob tensão permanente.