Estado-Maior redistribui elementos da unidade conhecida como “antigolpe” e assume o controlo da segurança de Horta Inta-A, num momento marcado por reservas quanto ao anunciado regresso do antigo Presidente.
A força especial criada durante o mandato de Umaro Sissoco Embaló e apresentada pelo próprio como uma unidade “antigolpe” foi desmantelada esta quarta-feira, 29 de setembro, numa operação militar na Presidência da República que gerou apreensão em Bissau. Segundo fontes do Estado-Maior-General das Forças Armadas, a intervenção procurou reforçar o controlo sobre a segurança presidencial perante a intenção manifestada pelo antigo chefe de Estado de regressar ao país.
A operação decorreu nas primeiras horas do dia, com a entrada de um destacamento fortemente armado nas instalações da Presidência, onde aquela unidade permanecia desde a sua criação. Os seus integrantes, que não terão sido previamente informados, foram redistribuídos por diferentes unidades militares.
De acordo com as mesmas fontes, a decisão foi tomada com “autorização do poder político instalado”. O objetivo seria evitar a permanência, junto do Presidente de Transição, Horta Inta-A, de uma estrutura que escapasse à cadeia de comando do Estado-Maior. A segurança passou, assim, a ser assegurada por militares diretamente subordinados à hierarquia das Forças Armadas.
As fontes consultadas sustentam que a força especial foi constituída sem o consentimento ou a participação do Estado-Maior. Os seus membros terão recebido formação no Congo Brazzaville, Turquia e, eventualmente, na Líbia.
A dimensão do dispositivo mobilizado alimentou o receio da população. A presença de viaturas militares de grande porte junto à Presidência e a movimentação de homens armados levaram à retirada de crianças das escolas e à saída de funcionários de alguns serviços públicos e privados.
Houve estabelecimentos de ensino privados que, além de dispensarem os alunos durante a manhã, suspenderam as aulas da tarde, invocando a incerteza quanto à evolução da situação. “A situação não está bem” foi uma das justificações transmitidas.
O desmantelamento acrescenta tensão ao ambiente que antecede o anunciado regresso de Embaló. O antigo presidente apontou 4 de outubro como data de chegada, numa publicação na sua página oficial em que pediu uma receção pacífica e apelou à prevalência dos interesses nacionais sobre os particulares.
A operação introduz uma nova incógnita nos preparativos dessa deslocação, embora, por si só, não permita concluir que o regresso tenha sido impedido ou adiado.
A intervenção militar ocorre num contexto de reservas, entre setores do poder de transição, quanto à oportunidade do retorno. Segundo as informações recolhidas, algumas figuras terão aconselhado Embaló a reconsiderar a iniciativa, por a julgarem prematura.
Outras receiam que a sua instalação em Bissau lhe permita reforçar posições com vista às eleições presidenciais de dezembro. Domingos Simões Pereira, citado pela imprensa internacional, terá ido mais longe, ao manifestar a convicção de que o antigo chefe de Estado pretende regressar para reassumir a Presidência.
A estas leituras junta-se a suspeita, atribuída a setores reticentes ao regresso, de que Embaló queira exercer pressão sobre Horta Inta-A e o primeiro-ministro de Transição, Ilídio Vieira Té. As informações disponíveis apontam para reservas de ambos, mas não permitem estabelecer uma posição oficial conjunta sobre o assunto.
Régulos de Biombo manifestam preocupação com Ilídio Vieira Té
Os receios em torno da segurança do primeiro-ministro tiveram expressão numa reunião de régulos da região de Biombo, de onde Ilídio Vieira Té é natural, realizada em 26 de setembro.
Os líderes tradicionais defenderam que o governante pode legitimamente ambicionar a Presidência da República e advertiram contra qualquer ameaça à sua integridade física. Evocaram os destinos de João Bernardo “Nino” Vieira e Veríssimo Correia Seabra, duas figuras de etnia papel mortas em episódios de violência militar.
A intervenção terá sido motivada por informações sobre alegadas ameaças provenientes de setores próximos de Embaló. Contudo, os elementos disponíveis não permitem confirmar a existência dessas ameaças, identificar os seus autores ou estabelecer qualquer envolvimento do antigo Presidente.
A preocupação manifestada pelos régulos acrescenta uma dimensão comunitária à tensão política. Não constitui, porém, prova das intenções atribuídas a Embaló ou aos seus apoiantes.
