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Guiné-Bissau: Reconciliação no PRS pode esconder reposicionamento político estratégico

GB Fernando Dias / Felix Nandungué

Unir para recuperar as bases ou unir para sustentar um determinado projeto político? Estas são as duas questões centrais que marcam o processo de reconciliação em curso entre militantes e dirigentes do Partido de Renovação Social (PRS). Dividida em duas alas, a formação política está em vias de recomposição interna, mas, para já, pouco mais é conhecido. O desfecho permanece incerto e não existem garantias de que o partido sairá mais forte após a reunião magna.

Segundo os seus promotores, a reconciliação visa facilitar a realização do VII Congresso, em data ainda por definir, e restaurar a coesão interna necessária para enfrentar os desafios políticos futuros. O argumento é, à partida, consistente, mas o atual contexto político e as posições assumidas por uma das alas no passado recente levantam dúvidas sobre as reais motivações do processo.

Num momento em que os partidos enfrentam restrições às suas atividades, alegadamente impostas pelo Comando Militar, o facto de o PRS manter alguma margem de atuação política alimenta suspeitas. Para vários observadores, a reconciliação poderá constituir uma estratégia de uma das alas para aproximar o partido do atual regime político.

A hipótese de um eventual alinhamento futuro com o ex-Presidente Umaro Sissoco Embaló, embora ainda no plano especulativo, não reúne consenso entre apoiantes de Fernando Dias da Costa. Estes consideram que aproximações anteriores ao poder contribuíram para fragilizar a imagem e a credibilidade do partido.

Para além dessas leituras, existem também dados objetivos. Dirigentes do PRS confirmam que decorrem negociações com vista à construção de uma posição convergente sobre o futuro do partido, embora evitem avançar detalhes que ultrapassem a questão da realização do Congresso. A ala próxima de Fernando Dias da Costa, que se assume como direção legítima, considera a reconciliação útil apenas na medida em que permita organizar um congresso capaz de pôr termo ao atual bicefalismo na liderança.

Estes dirigentes não escondem reservas quanto às intenções da ala associada a Felix Nandungué, admitindo que a iniciativa possa visar a mobilização do partido para apoiar interesses externos. Ainda assim, consideram remota a possibilidade de um reposicionamento político dessa natureza, sublinhando que Fernando Dias da Costa possui atualmente um estatuto político próprio e integra uma aliança com o PAIGC que dificilmente abandonará.

Segundo fontes internas, um eventual afastamento dessa aliança seria interpretado como uma “traição imperdoável”, além de significar a legitimação de decisões passadas que colocaram o PRS numa posição fragilizada.

Apesar das divergências, há um ponto de convergência: todos os órgãos do partido são considerados caducos desde o início do ano, o que reforça a necessidade de entendimento para a realização do Congresso. “O PRS ficou bastante desgastado com as crises vividas entre 2024 e 2025. Se quisermos um partido forte, a direção tem de ser única. Essa é a nossa motivação, independentemente de quem venha a vencer o futuro Congresso”, afirmou um dirigente próximo de Fernando Dias da Costa.

De acordo com informações recolhidas junto de quadros do partido, o objetivo imediato passa por alcançar consenso em torno da realização do Congresso e garantir que o mesmo ocorra antes das próximas eleições, num esforço de reorganização interna que poderá ser determinante para o futuro político do PRS.

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