As eleições de 23 de novembro de 2025 marcam a entrada da Guiné-Bissau em mais uma fase de colapso institucional. O golpe de 26 de novembro não surgiu num vazio nem de uma crise real. Ele é o ponto de chegada de uma estratégia política longa, em que Umaro Sissoco Embaló antecipou moldando o calendário eleitoral, fragilizando as instituições, tentando neutralizar a oposição e usando, de forma recorrente, o medo do “golpismo” para preservar o seu próprio poder.
Sob a liderança de um Alto Comando Militar e com um governo dominado por aliados do Presidente deposto, a Guiné-Bissau vive hoje um paradoxo. Fala-se na “restauração da ordem”, mas os principais opositores estão presos ou em fuga, enquanto Embaló foi autorizado a abandonar o país e os seus fiéis continuam no centro do aparelho de Estado.
A atual crise começa antes de 23 de novembro. A indefinição do calendário eleitoral e a prolongada incerteza sobre o fim de mandato de Sissoco Embaló já eram denunciadas por plataformas da sociedade civil como uma ameaça à democracia.
Quando finalmente é agendada definitivamente a eleição, o campo é tudo menos equilibrado. O PAIGC, principal força histórica da oposição, é impedido de concorrer com o seu candidato presidencial natural, Domingos Simões Pereira (DSP). A PAI-Terra Ranka e API Cabas Garandi também. Observadores e analistas internacionais apontam, desde logo, para a perda de credibilidade do processo, sublinhando que a exclusão de DSP iria abrir espaço a um cenário desenhado à medida de Sissoco Embaló.
Neste contexto surge um insólito “Plano B” com a emergência de Fernando Dias que obtém o apoio da PAI Terra Ranka como candidato alternativo. Apoiado por várias alas da oposição, Fernando Dias é visto, em muitos círculos políticos, como um adversário pouco ameaçador para o sistema de poder instalado em torno de Embaló.
Durante a campanha Sissoco Embaló manteve um modelo opaco, baseado em negociações de bastidores e na instrumentalização das instituições eleitorais. Mantém também ao seu lado Braima Camará, Nuno Nabiam e Botché Candé, e não hesita em prometer, prevendo um futuro próximo, que após as eleições irá mandar deter as principais figuras da oposição, nomeadamente Domingos Simões Pereira, Fernando Dias, Geraldo Martins e Agnelo Regalla.
O golpe dos fiéis e dos amigos
A 26 de novembro, em Bissau, registam-se tiros na zona do palácio presidencial, no Ministério do Interior e na Comissão Nacional de Eleições (CNE). Um grupo de oficiais anuncia ter assumido o “controlo total do país”, fecha fronteiras, suspende o processo eleitoral e proclama a criação do Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública, chefiado pelo general Horta Inta-A, um fiel de Umaro Sissoco Embaló.
A comunidade Internacional toma conhecimento do golpe em curso, através de uma informação que o próprio Sissoco Embaló transmite por telefone à imprensa francesa, em que afirma estar detido.
Quase simultaneamente, homens armados invadem as instalações da CNE e destroem, ou fazem desaparecer, grande parte das atas do escrutínio de 23 novembro, obrigando a Comissão a declarar, dias depois, que já não é possível publicar resultados fiáveis.
O facto de o órgão responsável pelos resultados ter sido o alvo central da violência num momento em que se especulava que o escrutínio era desfavorável a Sissoco Embaló torna este episódio politicamente suspeito, e muitos observadores, dentro e fora do país, não esconderam esse sentimento.
A narrativa oficial, repetida pelo círculo de Sissoco Embaló, refere uma conspiração de “políticos e estrangeiros” para manipular os resultados com apoio de narcotraficantes. Mas, as principais figuras da oposição, incluindo DSP e Fernando Dias, respondem acusando o Presidente de ter simulado ou instrumentalizado uma crise militar para bloquear a divulgação dos resultados e estender a sua permanência no poder.
Na mesma ocasião, o primeiro-ministro senegalês, Ousmane Sonko, e o ex-Presidente nigeriano Jonathan Goodluck, que chefiou uma missão de observação e mediação, descrevem publicamente os eventos como um “golpe encenado” ou “golpe cerimonial”. Jonathan Goodluck estranha o facto de ter sido o próprio Sissoco Embaló o primeiro a anunciar à imprensa francesa que tinha sido deposto, antes de qualquer declaração formal dos militares, um iniciativa inédita nas recentes mudanças de regime na África Ocidental.
Estas declarações, vindas de figuras com experiência em crises regionais, dão consistência à tese de que Sissoco Embaló não foi um mero alvo de um complot, mas um ator central na construção do roteiro que conduziu ao golpe.
Um novo Governo à medida de Sissoco Embaló
Se o golpe fosse realmente dirigido contra Sissoco Embaló e o seu sistema de poder, seria de esperar que, uma vez no controlo, os militares afastassem os seus aliados do aparelho de Estado. O que acontece é precisamente o contrário.
Em poucas horas, o Alto Comando Militar escolhe como Presidente de Transição o general Horta Inta-A, figura da confiança e próximo ao presidente deposto. Dias depois, o novo presidente empossa como primeiro-ministro Ilídio Vieira Té, ministro das Finanças de Sissoco Embaló e diretor da sua campanha nas eleições de 23 de novembro.
Al Jazeera, France 24, Associated Press, Reuters e outros órgãos francófonos, anglófonos e lusófonos convergem num ponto essencial, o governo de transição, com 28 membros, é dominado por quadros próximos do Presidente deposto, apesar de este se encontrar fora do país.
Ao mesmo tempo, as principais figuras da oposição vivem um cenário diametralmente oposto. Domingos Simões Pereira é detido, enquanto a sede do PAIGC e de outros partidos é atacada por homens armados. Fernando Dias é forçado a passar à clandestinidade, e circula a informação de que a Nigéria lhe teria oferecido proteção perante várias ameaças de que é alvo.
O contraste é gritante. Quem contesta Sissoco Embaló é preso, perseguido ou silenciado. Quem lhe era fiel permanece no exercício do poder. Mesmo ausente, a arquitetura política moldada por Embaló continua de pé.
Outro elemento que levanta sérias suspeitas de um golpe “encenado”, é o tratamento reservado ao próprio Sissoco Embaló.
Após o golpe, o Presidente é supostamente detido e rapidamente libertado, graças a uma mediação do Senegal. Em seguida, viaja para Dakar e, pouco depois, para Brazzaville, onde é recebido e permanece efemeramente, segue depois para Marrocos, segundo fontes diplomáticas.
Ao contrário dos opositores, Sissoco Embaló não tem a circulação condicionada, nem enfrenta acusações formais da junta militar. Esta diferença de tratamento fragiliza ainda mais a ideia de que o golpe teria como propósito principal afastar o antigo Presidente.
Para muitos analistas da região, a imagem que emerge é a de um “golpe negociado”, em que Sissoco Embaló abdica formalmente do cargo, mas preserva, através dos seus aliados civis e militares, uma capacidade de influência determinante sobre o rumo da transição, que poderá resultar no seu regresso à Guiné-Bissau e ao poder.
O contexto regional também pesa. A CEDEAO, criticada nos últimos anos pela sua incapacidade para travar golpes no Mali, Burkina Faso, Níger ou na Guiné Conacri, reage desta vez de forma mais articulada. Suspende a Guiné-Bissau das suas instâncias decisórias, em sintonia com a União Africana e a CPLP, que condena o golpe e exige a libertação imediata dos detidos.
Em paralelo, a tentativa de golpe no Benim, a 7 de dezembro, funciona como um teste decisivo. A resposta é rápida. Duzentos militares e dois aviões nigerianos, integrados numa força de apoio decidida pela CEDEAO, intervêm em poucas horas para neutralizar os militares rebeldes e repor a autoridade do presidente Patrice Talon, numa demonstração de força regional inédita nos últimos anos.
É neste quadro que, em Bissau, circulam rumores de que a CEDEAO poderá acabar a exigir três condições para um reconhecimento pleno da transição, nas quais contam o regresso de Umaro Sissoco Embaló a Bissau para esclarecer o seu papel na crise; anulação formal do escrutínio de 23 de novembro, que terá ficado irremediavelmente comprometido; e a realização de novas eleições em condições de transparência e inclusão, com observação internacional robusta.
Até ao momento, nenhum destes pontos foi oficialmente adotado pelo bloco regional, mas diplomatas, analistas e organizações da sociedade civil evocam-nos como cenários plausíveis numa estratégia de pressão sobre a junta e sobre o próprio Sissoco Embaló.
Narrativa dos “golpes”
Ao longo do seu mandato, Sissoco Embaló falou incessantemente de “golpes” quase como um recurso retórico permanente, apresentando-se repetidamente como o alvo de conspirações sucessivas. Críticos, citados por órgãos como The Guardian e análises académicas recentes, sublinham que esta narrativa serviu para concentrar poderes, neutralizar os adversários e justificar o recurso às forças armadas como árbitro político.
Enquanto os resultados de 23 de novembro continuarem ocultos, a oposição tiver os seus líderes presos ou em fuga e o aparelho de Estado for controlado por figuras que orbitam em torno de Sissoco Embaló, a Guiné-Bissau permanecerá refém de um ciclo em que nem os civis mandam plenamente, nem os militares assumem a total responsabilidade.
No centro deste labirinto, está o legado político de Umaro Sissoco Embaló com um projeto de poder centrado na sua figura, um sistema de facto presidencialista, que sacrificou a credibilidade eleitoral, fragmentou as instituições e empurrou, mais uma vez, a Guiné-Bissau para a zona cinzenta entre democracia e tutela castrense.
