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Guiné-Bissau: Umaro Baldé deixa Câmara de Bissau menos de um mês após a sua nomeação

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A curta passagem de Umaro Baldé pela presidência da Câmara Municipal de Bissau entrou esta semana numa zona de forte tensão política e institucional.

Umaro Baldé apresentou esta terça-feira (16.06) o seu pedido de demissão ao Ministro da Administração Territorial e Poder Local. A informação foi confirmada à e-Global por fonte governamental, que não detalhou os motivos da decisão, que surge menos de um mês depois da sua nomeação e no rescaldo da polémica em torno da retirada de vendedores dos passeios do Mercado de Bandim.

Umaro Baldé foi nomeado para dirigir a principal autarquia do país a 26 de maio, por decisão do Governo de transição, num movimento mais amplo de substituição de dirigentes da Administração Pública. A sua chegada à Câmara Municipal de Bissau ocorreu após a exoneração de José Medina Lobato e foi politicamente lida como uma aposta do atual poder de transição numa figura jovem, ligada à mobilização juvenil e ao espaço político do MADEM-G15.

A nomeação foi recebida com entusiasmo pela Green Boys, plataforma juvenil afeta ao antigo presidente Umaro Sissoco Embaló e na qual Baldé é coordenador nacional. A organização saudou a escolha como reconhecimento da sua liderança, do seu compromisso com a juventude e da sua visão para o desenvolvimento urbano e social. A mensagem tinha uma leitura política evidente: Baldé chegava à Câmara como representante de uma nova geração de quadros próximos do poder, num momento em que o regime de transição procura consolidar a sua base de apoio e projetar uma imagem de renovação administrativa.

Mas essa margem política estreitou-se rapidamente. A primeira grande frente de tensão surgiu no Mercado de Bandim, um dos centros económicos e sociais mais sensíveis da capital. A Câmara Municipal de Bissau avançou com orientações destinadas a impedir a ocupação dos passeios por vendedores e retalhistas, medida apresentada como parte de uma tentativa de ordenar o espaço público, melhorar a circulação, reforçar a higiene urbana e reduzir riscos de segurança.

A decisão provocou reação imediata dos feirantes, que se dirigiram à Primatura para contestar as novas orientações. Os vendedores alegaram que a retirada dos passeios teria impacto direto na sobrevivência económica das suas famílias, num contexto de forte precariedade social e de dependência diária da atividade informal.

O primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té, recebeu representantes dos feirantes e deslocou-se depois ao Mercado de Bandim. Publicamente, o chefe do Governo procurou equilibrar duas mensagens. Por um lado, apelou ao diálogo entre a Câmara e os vendedores, por outro, defendeu a necessidade de manter os passeios livres por razões de mobilidade, segurança pública, higiene e organização da cidade.

Foi nesse momento que a crise ganhou leitura política. Em setores próximos de Umaro Baldé, a intervenção direta do primeiro-ministro foi interpretada como uma desautorização e humilhação pública do presidente da Câmara Municipal de Bissau. Nas redes sociais, multiplicaram-se comentários acusando Ilídio Vieira Té de ter humilhado Baldé perante os comerciantes do Mercado de Bandim e de ter fragilizado a autoridade municipal num dossiê politicamente sensível.

A carta de demissão surge, assim, num contexto em que a questão urbana se transformou num problema político. A reorganização dos mercados de Bissau é uma matéria recorrente, mas raramente neutra: envolve interesses económicos, sobrevivência informal, autoridade municipal, capacidade de execução do Governo e sensibilidade social num país em transição.

Após a divulgação do pedido de demissão, funcionários da Câmara Municipal de Bissau manifestaram apoio a Umaro Baldé, recebendo-o no regresso ao trabalho com mensagens de solidariedade e reconhecimento. O gesto foi interpretado como tentativa de demonstrar que Baldé conserva apoio interno na instituição, apesar da tensão criada pela crise do Mercado de Bandim.

Politicamente, o episódio expõe as contradições do atual poder de transição. A nomeação de Baldé tinha sinalizado abertura a quadros jovens e politicamente mobilizados, próximos da estrutura juvenil do MADEM-G15 e da Green Boys. A sua eventual saída, poucos dias depois, revelaria a dificuldade de compatibilizar renovação política, disciplina governamental e gestão de conflitos sociais concretos.

Num quadro mais amplo, a crise ocorre num país ainda marcado pela instabilidade aberta após a interrupção da ordem constitucional em novembro de 2025 e pela instalação de um poder de transição liderado pelo general Horta Inta-a, com Ilídio Vieira Té como primeiro-ministro. A administração local, particularmente em Bissau, tornou-se parte desse xadrez político. Controlar a Câmara da capital significa gerir não apenas serviços urbanos, mas também redes sociais, mercados, juventude, comerciantes e visibilidade pública.

A demissão de Umaro Baldé será por isso mais do que uma simples mudança administrativa. Representará um revés político para uma figura apresentada há poucas semanas como símbolo de renovação e colocará o Governo perante a delicada questão de como impor ordem urbana sem romper com setores sociais vulneráveis e sem desautorizar os seus próprios nomeados.

Numa declaração publicada hoje na sua página nas redes sociais, Umaro Baldé agradeceu as manifestações de solidariedade recebidas desde ontem por parte dos funcionários da Câmara Municipal de Bissau, dos munícipes, da juventude e da população em geral.

O autarca afirmou que, após uma “reflexão serena” e colocando “acima de tudo o interesse de Bissau”, decidiu continuar a dar a sua contribuição ao serviço dos munícipes. Baldé renovou ainda o compromisso de trabalhar por “uma cidade mais organizada, mais limpa, mais moderna e mais próxima dos seus cidadãos”, sinalizando assim a sua intenção de permanecer em funções, apesar da crise política aberta em torno da sua carta de demissão.

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