Braima Camará, coordenador de uma das alas do MADEM-G15, apelou aos dirigentes e militantes que o apoiaram na disputa com Satú Camará para deixarem de lado a lógica de fações e se unam em torno do partido e do presidente cessante, Umaro Sissoco Embaló, com vista às eleições gerais de Novembro.
Num encontro com presidentes das comissões políticas ainda fiéis à sua liderança, Camará assegurou que, em caso de vitória de Embaló, continuará como primeiro-ministro e será “o primeiro a completar quatro anos consecutivos” no cargo. Ao mesmo tempo, anunciou a decisão do MADEM de integrar a Plataforma Republicana “Nô Kumpu Guiné”, reafirmando apoio incondicional ao segundo mandato de Embaló.
Segundo Camará, a adesão à Plataforma Republicana representa um passo estratégico. “O MADEM integra-se de corpo e alma, porque tornou-se na única alternativa”. Declarou ainda ter recebido “99% de confiança dos presentes” e frisou que “Sissoco Embaló é o meu candidato”. Para justificar a escolha, evocou o exemplo de Francisco Fadul e considerou Embaló uma figura “incomparável com qualquer outro Presidente eleito na Guiné-Bissau”.
O reaparecimento de Braima Camará foi inesperado e representou uma inversão em relação às posições que assumira no auge da crise interna do MADEM. Recorde-se que, em 2024, garantira jamais abdicar do cargo de coordenador, por se tratar de uma conquista no congresso. Desta vez, sem esclarecer se recupera formalmente essa função, falou sempre na condição de líder e garantiu não querer prolongar o confronto com Satú Camará. “É isso que os nossos inimigos querem. Continuarmos esta luta sem fim. Não vamos aceitar. Por isso, chamei as estruturas para anunciar a reconciliação”, disse.
No encontro, exaltou o papel de Embaló como árbitro político. “O Presidente tomou uma decisão sábia quando, numa reunião na Presidência, ordenou que as alas regressassem à procedência e que cada um retomasse o seu lugar antes da crise”.
Em tom conciliador, Camará pediu desculpas aos militantes pela divisão no seio do partido. “Peço desculpas, não por ter cometido algum erro, mas por reconhecer os esforços consentidos ao longo destes anos”. Sublinhou que a crise interna foi conduzida sempre sob orientação partidária e acrescentou que “Não há guerras permanentes. Todos têm conflitos, mas a história provou que todos terminam na mesa de reconciliação”.
Sem esconder críticas ao PAIGC e ao regresso político de Domingos Simões Pereira, o primeiro-ministro sublinhou que Embaló “é do MADEM e não podia nunca ficar em mãos alheias”.
Camará destacou que as divergências não serão resolvidas nos tribunais. “O PR disse que não há alas. Que cada um volte onde estava para ocupar as suas funções”. Afirmou ainda inspirar-se em Nelson Mandela, avançando que “O ódio, o ajuste de contas, a inveja, a traição destroem qualquer organização. Perdoemos na boca e no coração”.
Sobre as listas para as legislativas, assegurou que os cabeças de lista se manterão e advertiu contra intrigas. “Não está bem termos pessoas que cumprimentam o coordenador de manhã e à tarde falam mal dele. Devemos parar com essas intrigas”.
Camará insistiu ainda que o MADEM precisa de união para enfrentar as eleições. “Vou pela primeira vez a umas eleições como primeiro-ministro, e será diferente. Estou aqui de corpo e alma para consolidar a reconciliação e virar a página”.
José Mário Vaz abandona o MADEM
O anúncio de Braima Camará coincidiu com outra movimentação de grande impacto na cena política guineense. O antigo Presidente da República, José Mário Vaz (Jomav), formalizou esta segunda-feira, 22 de Setembro, a sua renúncia à militância no MADEM-G15, justificando a decisão com “motivos pessoais”. A saída de Jomav fragiliza ainda mais a coesão do partido, que procura reorganizar-se em torno da candidatura de Umaro Sissoco Embaló.
Mais do que uma resposta direta a Braima Camará, a renúncia de Jomav é interpretada como uma jogada política cuidadosamente calculada.
Fontes fidedignas asseguraram que a saída do ex-chefe de Estado representa uma estratégia para contornar obstáculos judiciais e abrir caminho à sua candidatura presidencial em 2025, com o apoio de várias forças partidárias.
Inicialmente, José Mário Vaz pretendia apresentar-se como candidato independente, mas o respaldo de uma longa lista de formações políticas, entre as quais se destaca a COLIDE-GB, liderada por Juliano Fernandes, acabou por pesar na decisão. Caso tivesse permanecido no MADEM, a sua militância poderia ser invocada como argumento jurídico para inviabilizar a candidatura.
Com este reposicionamento, o campo de Umaro Sissoco Embaló perde uma figura de peso, sobretudo tendo em conta o papel desempenhado por Jomav na segunda volta das presidenciais de 2019. Nessa altura, o ex-Presidente mobilizou decisivamente a região de Cacheu, garantindo números significativos que contribuíram para a vitória eleitoral de Embaló.
