A esperança da oposição política face ao regime instalado na Guiné-Bissau começa a esmorecer. Para além da dificuldade em contestar a permanência de Umaro Sissoco Embaló no poder após o término do seu mandato em Fevereiro, o cenário diplomático mostra-se cada vez mais desfavorável aos opositores.
Na semana passada, uma missão da CEDEAO, liderada pelo presidente da Comissão, o gambiano Aliou Touray, esteve em Bissau, onde manteve encontros apenas com as autoridades. Foi mencionada uma alegada pressão para alterar a agenda da missão, o que, se confirmado, demonstraria avanços diplomáticos significativos que o aparelho de Sissoco Embaló tem conseguido em comparação com seus adversários.
Durante os encontros, Touray defendeu o calendário eleitoral estabelecido pelo Governo — com eleições gerais previstas para Novembro — e fez questão de afirmar que a CEDEAO está ao lado das autoridades para garantir um processo justo e transparente. Surpreendente para a oposição, foi a reunião de Touray com Satú Camará, na qualidade de presidente da Assembleia em exercício, sem qualquer questionamento fosse pronunciado quanto à sua legitimidade.
Paralelamente, em clara pré-campanha eleitoral, aliados de Umaro Sissoco Embaló têm feito declarações e promessas que desestabilizam a oposição. No último fim-de-semana, em Biombo, a 40 quilómetros de Bissau, o Secretário de Estado da Ordem Pública, José Carlos Macedo, afirmou que, caso Sissoco Embaló seja reeleito, a Constituição da República será “rasgada”. Segundo Macedo, isso se justificaria pelo trabalho “extraordinário” que o presidente tem realizado, sendo os futuros deputados os responsáveis por eliminar a necessidade de eleições, à semelhança do que ocorre na China ou no Ruanda.
Essa declaração caiu como uma bomba na oposição, que considerou as declarações de José Carlos Macedo um deslize emocional que revelou um plano oculto do regime, consolidando o poder por meio de fraude eleitoral e abolir o regime democrático.
Ainda assim, os sinais são de fortalecimento de Sissoco Embaló. No dia 25 de Maio, o governo impediu a realização de uma marcha organizada por três movimentos (Frente Popular, Pó di Terra e Cassacá 64) e manteve quatro dirigentes detidos por dois dias. A ausência de reacção por parte da oposição foi notada e enfraqueceu ainda mais a sua posição pública.
A missão da CEDEAO não fez qualquer menção à delegação expulsa da Guiné-Bissau em Fevereiro de 2025, tampouco comentou o relatório elaborado pela equipa de alto nível. Domingos Simões Pereira, líder da oposição, questionou o conteúdo do relatório e, principalmente, a inacção da CEDEAO e do seu presidente.
Em apenas dois dias, Sissoco Embaló recebeu dois Chefes de Estado: um do Senegal, o que causou forte exasperação entre os opositores por este ser considerado como próximo do PAIGC, e outro do Tchad, envolvido em alegadas práticas pouco transparentes e contestadas. A visita de Bassirou Diomaye Faye, presidente do Senegal, apesar de breve, foi suficiente para ser explorada politicamente por Embaló, sobretudo diante dos militantes do PAIGC, que esperavam apoio de Faye a Domingos Simões Pereira. Embaló aproveitou para elogiar publicamente o chefe de Estado senegalês, afirmando que é o primeiro presidente do Senegal a realizar uma visita de Estado à
No seu vídeo semanal, Domingos Simões Pereira criticou o papel dos organismos internacionais, em particular a CPLP, que, segundo ele, nada faz para ajudar a reverter a situação. Criticou também o facto de a organização da cimeira estar sob total sigilo.
A situação interna dos partidos políticos agrava ainda mais a fragilidade da oposição. O PAIGC conseguiu travar a realização de um congresso extraordinário, mas enfrenta críticas pela ausência de definição sobre o retorno do seu presidente ao país, que, apesar de anunciado, continua sem data marcada.
No MADEM-G15, especialmente na ala liderada por Braima Camará, reina o silêncio. Não há declarações nem sinais claros sobre a linha de actuação futura. O projecto de reconciliação interna parece cada vez mais inviável. No encontro em Biombo, José Carlos Macedo acusou Braima Camará de estar a enganar Sissoco com promessas de reconciliação. Segundo ele, o MADEM só está “vivo” agora, porque antes, com Camará à frente, estava “muito doente”.
A situação no PRS é ainda mais complexa. O partido está dividido entre dois presidentes, e a tão anunciada reconciliação parece não ter qualquer viabilidade.
