Paraguai: Lula defende Mercosul como “prioridade estratégica” e apela à “união regional” na cimeira de Assunção

Foto: Ricardo Stuckert/PR

O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu esta terça-feira, 30 de junho, o fortalecimento do Mercosul como instrumento de integração regional, durante a 68.ª Cimeira de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, realizada em Assunção, no Paraguai. No discurso de abertura, Lula afirmou que o bloco representa uma necessidade estratégica para a América do Sul e apelou ao reforço da cooperação entre os países, independentemente das diferenças ideológicas.

Segundo o chefe de Estado brasileiro, o Mercosul continua a ser o principal espaço institucional de uma região marcada pela polarização política. Lula sublinhou que a integração deve traduzir-se em benefícios concretos para a população e destacou o papel do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), responsável pelo financiamento de projetos de infraestrutura, saneamento, energia, habitação e desenvolvimento social. O Presidente anunciou ainda a intenção do Brasil de aumentar a sua contribuição para um futuro Focem II, com um aporte anual de 100 milhões de dólares durante dez anos.

Ao abordar os resultados económicos do bloco, Lula recordou que o comércio entre os países do Mercosul passou de 4,5 mil milhões de dólares, em 1991, para mais de 50 mil milhões de dólares em 2025. Referiu também que, no último ano, as trocas comerciais do bloco com o resto do mundo cresceram mais de 6%, atingindo quase 760 mil milhões de dólares, dos quais mais de 400 mil milhões corresponderam a exportações. Para o Presidente brasileiro, estes números demonstram a relevância crescente do Mercosul e reforçam a importância da conclusão do acordo comercial com a União Europeia.

Antes da intervenção, Lula solicitou um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos sismos que atingiram a Venezuela na semana passada. O Presidente expressou solidariedade ao povo venezuelano e defendeu que tragédias desta dimensão evidenciam a necessidade de cooperação regional em situações de emergência.

No plano ambiental, Lula alertou para os impactos previstos de um novo fenómeno El Niño e defendeu uma resposta coordenada dos países sul-americanos perante desafios como as alterações climáticas, a transição energética, a transformação digital, a saúde pública e o combate ao crime organizado transnacional. Salientou que estes temas exigem uma coordenação regional sem precedentes e considerou que o projeto de integração sul-americano deve permanecer acima das divergências ideológicas.

O Presidente brasileiro afirmou ainda que o Mercosul reúne condições para assumir um papel de destaque na transição energética global, destacando a produção de energias renováveis, o potencial para o desenvolvimento do hidrogénio verde e dos combustíveis sustentáveis para a aviação, bem como a necessidade de aprofundar a integração elétrica e gasífera entre os países do bloco.

Outro dos temas centrais do discurso foi a valorização dos minerais críticos, considerados estratégicos para a descarbonização e para a economia digital. Lula defendeu a criação de cadeias regionais de valor acrescentado e saudou a apresentação, pelo Paraguai, de um plano de trabalho para o desenvolvimento conjunto deste setor, classificando-o como um passo para reforçar a autonomia estratégica da região.

Na área política, o Presidente alertou para os riscos que a desinformação representa para as democracias e apelou ao fortalecimento das instituições regionais dedicadas à proteção dos povos indígenas, afrodescendentes, crianças, idosos, pessoas com deficiência e comunidade LGBTQIA+. Defendeu igualmente a análise urgente do Pacto Regional pelo Fim da Violência contra as Mulheres, proposto pelo Brasil.

Lula dedicou também parte da sua intervenção ao combate ao crime organizado, defendendo uma maior articulação entre os sistemas policial, judicial e financeiro dos países do Mercosul para enfrentar organizações criminosas que atuam além-fronteiras e expandem a sua atividade para o ambiente digital.

No encerramento da intervenção, o Presidente brasileiro apelou ao reforço do diálogo entre os Estados-membros e à diversificação das parcerias internacionais, defendendo que a autonomia do bloco dependerá da sua capacidade de cooperar com diferentes parceiros sem comprometer os interesses comuns. Lula pediu ainda que, durante os próximos seis meses, os países consolidem as estruturas institucionais de apoio ao Mercosul, garantindo a sua continuidade independentemente das mudanças de governo nos Estados-membros.

Ígor Lopes

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