Sudão: Contrabando de ouro e goma arábica estão a financiar a guerra

Um novo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos alerta que o contrabando de ouro e a exploração da goma arábica estão a alimentar o conflito no Sudão, servindo como importantes fontes de financiamento tanto para as Forças Armadas Sudanesas (SAF) como para as Forças de Apoio Rápido (RSF). Segundo a ONU, a exploração destes recursos naturais está a contribuir para uma “economia de guerra” que torna o conflito cada vez mais autossustentável.

A goma arábica, utilizada na produção de refrigerantes, cosméticos, produtos alimentares e medicamentos, representa um meio de subsistência para cerca de cinco milhões de sudaneses. Antes do início da guerra, em 2023, o Sudão era responsável por cerca de 70 a 80% das exportações mundiais deste produto. No entanto, o relatório refere que produtores e comerciantes enfrentam ameaças, detenções arbitrárias, extorsões e saques por parte dos grupos armados que disputam o controlo das zonas de produção.

As Nações Unidas revelam ainda que as RSF recorreram ao saque de grandes quantidades de goma arábica para compensar combatentes na ausência de salários, tendo sido roubadas pelo menos 3.700 toneladas entre janeiro e junho de 2024. Em maio de 2025, o grupo terá igualmente saqueado reservas num importante centro comercial do estado de Cordofão Ocidental, encaminhando posteriormente o produto para Darfur e para o Chade. A reetiquetagem da goma arábica ao longo das cadeias comerciais dificulta o rastreio da sua origem e favorece o comércio ilícito.

O relatório destaca igualmente o papel do ouro no financiamento da guerra. Em 2024, a produção declarada nas áreas controladas pelas forças governamentais rondou as 65 toneladas, das quais apenas 28 toneladas foram oficialmente exportadas através de Porto Sudão, num valor estimado de 1,6 mil milhões de dólares. A ONU estima, contudo, que cerca de 48% da produção total de ouro do país tenha sido contrabandeada para o exterior, não existindo dados fiáveis sobre a extração nas zonas controladas pelas RSF.

O Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, apelou à interrupção da economia de guerra e instou os Estados e as empresas envolvidas nas cadeias de abastecimento a reforçarem a fiscalização das matérias-primas provenientes do Sudão. A ONU considera que a exploração ilegal dos recursos naturais está a agravar a crise humanitária e a prolongar um conflito que já provocou milhares de mortos e milhões de deslocados.

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