A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, alertou esta quarta-feira para o enfraquecimento dos pilares que sustentaram o crescimento económico europeu no pós-guerra. Num discurso no Conselho Empresarial Internacional do Fórum Económico Mundial, em Genebra, Lagarde afirmou que a expansão do comércio global, a competitividade industrial e a estabilidade da ordem internacional estão actualmente sob forte pressão.
Segundo a presidente do BCE, a Europa beneficiou durante décadas de uma forte abertura ao comércio, de uma indústria competitiva e de energia relativamente barata. No entanto, o aumento das restrições comerciais, a crescente concorrência da China e os preços elevados da energia estão a reduzir essas vantagens. No ano passado, a electricidade para as indústrias com elevado consumo energético na União Europeia custou, em média, mais do dobro do preço praticado nos Estados Unidos e cerca de 50% mais do que na China.
Lagarde destacou também o impacto das tensões geopolíticas e das alterações na ordem económica mundial. A crescente preocupação com dependências estratégicas e cadeias de abastecimento vulneráveis está a levar as empresas a dar maior importância à resiliência, em detrimento de decisões baseadas apenas na eficiência. Para a responsável do BCE, o modelo de crescimento europeu não deverá regressar à configuração que tinha no passado.
Apesar dos desafios, a presidente do BCE considera que a União Europeia mantém importantes vantagens, nomeadamente um mercado integrado de 27 países e cerca de 450 milhões de consumidores, uma força de trabalho qualificada e uma forte capacidade científica e tecnológica. Lagarde salientou ainda que a procura interna tem sustentado o crescimento da zona euro, que avançou 0,4% no segundo trimestre de 2026, e deverá continuar a ser o principal motor da economia este ano.
A inteligência artificial surge, para Lagarde, como uma oportunidade que a Europa não pode desperdiçar, depois de ter ficado para trás na primeira revolução digital. A responsável defendeu a redução da fragmentação do Mercado Único e uma maior integração dos mercados de capitais, para permitir que as empresas inovadoras cresçam à escala europeia. Entre as iniciativas em discussão está a criação da “EU Inc.”, uma forma jurídica empresarial comum que permitiria às empresas operar sob um conjunto único de regras em toda a União Europeia.