Cabo Verde: José Maria Neves destaca leitura como caminho para a liberdade, conhecimento e construção do futuro

O Presidente da República, José Maria Neves, destacou esta quarta-feira a importância do livro e da leitura como instrumentos de conhecimento, liberdade e transformação social, durante a abertura da II edição do Seminário Internacional “Ler: África – Ibero-América”, que decorre de 26 a 29 de agosto, no histórico Campo de Concentração do Tarrafal.

O encontro reúne mais de 70 escritores, académicos, investigadores e outros participantes provenientes de vários países, entre os quais Argentina, Brasil, Espanha, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, México, Moçambique e Portugal. A iniciativa pretende promover o livro, a leitura, a literatura e o intercâmbio cultural entre África e o espaço ibero-americano.

Na sua intervenção, José Maria Neves partiu da sua própria experiência para sublinhar a influência que os livros tiveram na sua compreensão de Cabo Verde e do mundo. Segundo o Chefe de Estado, foi através da leitura que teve contacto com diferentes períodos da história nacional e com autores que marcaram a literatura cabo-verdiana.

“A partir do livro, nós nos descobrimos e descobrimos o mundo”, afirmou, resumindo a importância que atribui à leitura enquanto instrumento de conhecimento e de descoberta.

Ao recordar o seu percurso como leitor, o Presidente mencionou autores nativistas e pré-claridosos, como Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, José Lopes de Vasconcelos e Januário Leite, bem como escritores ligados ao movimento Claridoso. Essa trajetória, explicou, permitiu-lhe compreender melhor as transformações sociais e políticas ocorridas no arquipélago ao longo dos séculos XIX e XX.

Neste percurso literário, José Maria Neves destacou igualmente a relação histórica e cultural entre Cabo Verde e o Brasil. Para o Presidente, essa aproximação manifesta-se não apenas na circulação de pessoas e ideias, mas também no diálogo estabelecido entre escritores dos dois países.

A literatura brasileira teve, nesse sentido, uma influência importante na formação da literatura cabo-verdiana. O Chefe de Estado estabeleceu paralelos entre obras e autores dos dois países, aproximando, por exemplo, a realidade social retratada por Graciliano Ramos daquela presente em obras de Manuel Lopes. Do mesmo modo, identificou pontos de contacto entre Jorge Barbosa e Manuel Bandeira, evidenciando a existência de uma forte comunidade temática e literária.

José Maria Neves considerou que esse diálogo entre diferentes autores e universos culturais faz parte da própria história de Cabo Verde. Através dos livros, afirmou, foi possível conhecer melhor as relações históricas do arquipélago com outros países e compreender a forma como acontecimentos externos tiveram repercussões na sociedade cabo-verdiana.

A literatura, por conseguinte, foi apresentada pelo Presidente como uma dimensão fundamental da construção da identidade nacional. Antes da independência política, sustentou, Cabo Verde já vivia um processo de afirmação literária e cultural que ajudou a preparar o terreno para a emancipação nacional.

Essa relação entre literatura, consciência e liberdade ganhou particular significado devido ao local escolhido para a realização do seminário. O Campo de Concentração do Tarrafal, outrora utilizado para a repressão e o encarceramento de presos políticos, acolhe agora escritores, académicos e leitores num espaço dedicado à circulação livre de ideias.

Para José Maria Neves, essa transformação confere ao encontro um significado especial. “É transcendental estar aqui a falar do livro a partir do livro”, afirmou, considerando particularmente simbólico discutir a liberdade e o conhecimento num lugar onde, no passado, se tentou limitar o pensamento.

O Chefe de Estado defendeu, por isso, que a memória do Tarrafal deve continuar associada à aprendizagem sobre o valor da liberdade e da dignidade humana. Ao mesmo tempo, considerou que o espaço deve ser encarado como um lugar de futuro, capaz de acolher iniciativas que promovam a cultura, o conhecimento e a reflexão.

A partir dessa perspetiva, José Maria Neves alertou também para alguns dos desafios da sociedade contemporânea, nomeadamente o radicalismo, o extremismo e a desinformação. Segundo o Presidente, a rapidez com que a informação circula nas redes sociais pode favorecer uma cultura de imediatismo, dificultando a reflexão aprofundada.

“A sabedoria, o conhecimento exige tempo, exige paciência”, afirmou, defendendo que a leitura não deve ser encarada como uma atividade imediata, mas como um processo que exige concentração e capacidade de questionamento.

Nesse sentido, considerou que ler é também uma forma de resistência à superficialidade e à manipulação da informação. O livro, explicou, abre espaço para a dúvida, para a formulação de perguntas e para a construção de pensamento crítico, permitindo que os cidadãos tenham maior capacidade de compreender a realidade e participar na definição do futuro.

A promoção da leitura assume, assim, uma dimensão que ultrapassa o domínio literário. Para o Presidente da República, incentivar o contacto com os livros significa também criar condições para uma sociedade mais informada, crítica e livre.

Durante a intervenção, José Maria Neves valorizou ainda o contributo de figuras da cultura cabo-verdiana, destacando particularmente o percurso multidisciplinar de Mário Lúcio Sousa. O escritor, músico, compositor e antigo governante foi apresentado como exemplo de uma personalidade capaz de transitar por diferentes áreas e, dessa forma, ampliar os horizontes da cultura nacional.

A realização da II edição do “Ler: África – Ibero-América” no Tarrafal surge, portanto, como uma oportunidade de reforçar o diálogo entre diferentes culturas e tradições literárias. Ao longo de quatro dias, o município acolhe participantes de vários países, criando um espaço de encontro entre escritores, académicos e leitores.

A Câmara Municipal do Tarrafal reafirma, por seu lado, a disponibilidade para continuar a apoiar iniciativas desta natureza, promovendo a cultura, a literatura e o intercâmbio internacional.

Ao concluir a sua intervenção, José Maria Neves voltou a associar o Tarrafal à serenidade necessária para pensar e criar. “Nós precisamos de paz, precisamos de serenidade, precisamos deste azul do Tarrafal para nos sentirmos capazes de continuar a ler, a pensar e a construir um futuro melhor para todas e todos os cabo-verdianos”, afirmou.

Dessa forma, o seminário encerra uma forte dimensão simbólica: num espaço historicamente associado ao silenciamento e à privação da liberdade, o livro e a leitura passam a ocupar o centro do debate, reafirmando o conhecimento, a cultura e a liberdade de pensamento como pilares essenciais para a construção do futuro.

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