Um em cada cinco jovens foi vítima, no último ano, de pelo menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia, segundo um novo relatório elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em conjunto com a ECPAT International e a Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol). O estudo reúne dados de investigações realizadas entre 2020 e 2025 em 21 países e alerta para a dimensão crescente dos abusos cometidos através de plataformas digitais.
As estimativas indicam que mais de 15 milhões de crianças foram expostas a conteúdos sexuais indesejados, enquanto cerca de nove milhões foram pressionadas a participar em conversas de natureza sexual ou a partilhar imagens íntimas. Até quatro milhões de crianças e adolescentes terão ainda sido vítimas da divulgação de imagens íntimas sem o seu consentimento. A diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell, sublinhou que estes abusos ocorrem frequentemente nos mesmos espaços digitais utilizados pelas crianças para jogar, comunicar e manter contacto com amigos.
As redes sociais e as aplicações de mensagens estão entre os principais ambientes onde estes crimes acontecem. Segundo o relatório, quase 60% dos casos ocorreram nestas plataformas, incluindo serviços populares como Instagram e TikTok, enquanto 14% tiveram lugar em jogos online. Em mais de 57% das situações, o agressor era alguém que a vítima já conhecia pessoalmente, como um colega, amigo, parceiro ou familiar. Quando o primeiro contacto ocorreu através da internet, os criminosos recorreram, em 38% dos casos, a funcionalidades das próprias plataformas, incluindo contas falsas e mensagens privadas.
O UNICEF alerta ainda para o elevado número de vítimas que permanece em silêncio. Mais de 40% das crianças e jovens que sofreram abusos não contaram o sucedido a ninguém, enquanto apenas cerca de 1% dos casos chegaram a ser comunicados às autoridades, como a polícia ou os serviços sociais. A falta de informação sobre onde procurar ajuda surge como uma das principais razões para a ausência de denúncias. As vítimas apresentam também um risco significativamente maior de enfrentar ansiedade, pensamentos suicidas, comportamentos autodestrutivos e automutilação.
Perante o aparecimento de novas formas de exploração, incluindo a extorsão sexual e a utilização de inteligência artificial para produzir material sexual envolvendo menores, o UNICEF defende reformas estruturais. A agência das Nações Unidas pede aos governos que reforcem a legislação, criem mecanismos eficazes de responsabilização das empresas tecnológicas e assegurem maior proteção da privacidade das crianças. Ao mesmo tempo, considera essencial combater normas sociais que banalizam a sexualização de menores e o estigma enfrentado pelos sobreviventes, defendendo uma resposta conjunta que torne os ambientes digitais mais seguros para crianças e adolescentes.