ONU alerta que peso da dívida sufoca desenvolvimento das nações mais pobres

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) alertou para o impacto devastador da dívida pública global, estimada em 111 biliões de dólares, sobre as economias em desenvolvimento. Segundo a agência, mais de 3,7 mil milhões de pessoas vivem em 51 países onde o pagamento de juros da dívida pública supera os orçamentos nacionais destinados à saúde e à educação, sufocando o crescimento económico e sacrificando investimentos essenciais.

O relatório revela uma profunda desigualdade no sistema financeiro internacional, com os países em desenvolvimento a pagarem, em média, taxas de juro de 5,2%, mais do dobro dos 2,2% cobrados às nações desenvolvidas. Esta disparidade fez com que a fatura anual de juros dos países mais pobres disparasse de 363 mil milhões de dólares em 2010 para cerca de 1 bilião de dólares. A UNCTAD calcula que, com taxas de juro idênticas às dos países ricos, estas economias poupariam 500 mil milhões de dólares por ano — verba suficiente para financiar 1,3 milhões de centros de saúde ou garantir alimentação a 1,6 mil milhões de crianças.

A crise agravou-se a partir de 2022, quando os pagamentos de juros externos passaram a exceder os novos empréstimos líquidos, forçando os governos a recorrer a endividamento interno ainda mais oneroso. A cautela dos investidores globais e a subida dos rendimentos dos títulos de dívida internacional mantêm os custos de financiamento elevados, reduzindo significativamente a margem de manobra fiscal das nações mais vulneráveis.

Antecipando a reunião da Plataforma de Mutuários, que decorrerá a 12 de outubro em Banguecoque no âmbito dos encontros anuais do FMI e do Banco Mundial, a ONU apela a reformas estruturais urgentes. A agência defende o reforço da assistência oficial ao desenvolvimento, a expansão de linhas de crédito multilaterais, a adoção de instrumentos financeiros inovadores e uma gestão macroeconómica mais sólida para inverter a trajetória de asfixia financeira nos países em desenvolvimento.

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