O Brasil entra na fase decisiva das eleições presidenciais de 2026 com a campanha condicionada não apenas pela disputa pelo Palácio do Planalto, mas também por uma crise institucional que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) e as investigações relacionadas com o “Banco Master”. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já validou nove das 13 chapas apresentadas para a Presidência, entre elas as de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que procura a reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), que concentra o principal campo de oposição. Também estão confirmados, até 9 de setembro, Romeu Zema (Novo), Augusto Cury ainda aguarda decisão, Renan Santos (Missão), Samara Martins (UP), Hertz Dias (PSTU), Edmilson Costa (PCB), Wilson Grassi (Democrata) e Clariana Barão (DC), enquanto quatro pedidos permanecem por analisar pelo tribunal.
As sondagens mais recentes indicam um estreitamento da corrida entre Lula e Flávio Bolsonaro. Um levantamento BTG/Nexus divulgado em 8 de setembro colocou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 35%, enquanto numa eventual segunda volta o senador aparece com 46% e o atual presidente com 45%, diferença dentro da margem de erro. O Datafolha havia registado Lula com 38% e Flávio com 33% no primeiro turno, além de empate técnico na segunda volta, com 46% contra 44%. Outros levantamentos divulgados nos últimos dias também apresentam variações dentro ou próximas das margens de erro num eventual confronto direto. A rejeição permanece elevada para os dois candidatos: segundo o Datafolha, 47% afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro e 45% dizem o mesmo sobre Lula, indicador que pode aumentar o peso dos eleitores ainda indecisos e dos candidatos fora dos dois principais blocos.
Paralelamente à campanha, o STF atravessa uma crise desencadeada por divergências entre ministros em torno das investigações sobre o “Banco Master” e da própria atuação da Polícia Federal. O presidente do Supremo, Edson Fachin, interveio esta semana após decisões contraditórias dos ministros André Mendonça e Flávio Dino relacionadas com o comando da PF. Mendonça tinha determinado o afastamento do diretor-geral Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, enquanto Dino contestou a medida. Fachin suspendeu as decisões e manteve Andrei Rodrigues no cargo. O presidente do STF também determinou que eventuais investigações envolvendo ministros da Corte fiquem “sujeitas a controlo institucional”, num momento em que o tribunal procura conter a disputa interna. Fachin retirou ainda Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news, processo que o ministro conduzia há mais de sete anos.
No centro das tensões está o caso “Banco Master”, que continua a produzir novas linhas de investigação. A PF apura suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa relacionadas com a instituição que era controlada por Daniel Vorcaro. Em fases anteriores da “Operação Compliance Zero”, o STF autorizou medidas contra gestores do banco e pessoas com atuação política, incluindo diligências envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e investigações sobre uma possível relação entre executivos do “Master” e o senador Jaques Wagner. Esta semana, a Polícia Federal intimou para prestar depoimento, na condição de testemunhas, o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o ex-presidente Roberto Campos Neto, o diretor de Fiscalização Ailton de Aquino Santos e André Esteves, do BTG Pactual. A investigação procura esclarecer a atuação de responsáveis do Banco Central perante as operações do “Master”. Uma delação premiada homologada por André Mendonça acrescentou ainda novas informações sobre movimentações financeiras atribuídas a operadores ligados a Vorcaro.
A combinação entre campanha eleitoral, investigações policiais e conflito no Supremo coloca as instituições no centro do debate político até às eleições de outubro. Lula e Flávio Bolsonaro chegam às próximas semanas separados por margens reduzidas nas sondagens, enquanto as revelações sobre o Master são utilizadas no confronto político por diferentes campos. Ao mesmo tempo, STF, Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal enfrentam o desafio de preservar procedimentos legais e separar as investigações da disputa eleitoral. Fachin convocou uma resposta institucional à crise e o Supremo deverá voltar a discutir o tema nos próximos dias. Com a primeira volta das eleições cada vez mais próxima, novos desdobramentos do caso “Master”, decisões judiciais ou operações da PF têm potencial para entrar diretamente na agenda das campanhas, tornando o percurso até às urnas dependente não apenas dos programas eleitorais, mas também das respostas que Brasília dará à atual crise entre política, Justiça e investigação criminal.
“Celebrar a independência”
As celebrações dos 204 anos da Independência do Brasil, no último 7 de setembro, também refletiram o ambiente político da campanha eleitoral. Em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou no desfile Cívico-Militar na Esplanada dos Ministérios, realizado sob o tema da soberania nacional, ao lado do presidente do STF, Edson Fachin, do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. Alexandre de Moraes e André Mendonça, ministros envolvidos nas divergências recentes no Supremo em torno do caso “Banco Master”, não estiveram presentes. Paralelamente, apoiantes da oposição realizaram um ato na capital federal com críticas ao Governo e ao STF.
Em São Paulo, a Avenida Paulista voltou a concentrar manifestações políticas, com Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos envolvidos em diferentes atos críticos da atuação de Alexandre de Moraes e da Corte. No Rio de Janeiro, Copacabana recebeu uma manifestação que contou com a participação do candidato presidencial Augusto Cury, que defendeu a investigação de eventuais irregularidades envolvendo integrantes das instituições, num discurso centrado na necessidade de apuração dos factos. As manifestações nas três cidades mostraram como uma data tradicionalmente associada às celebrações cívicas voltou a funcionar, em 2026, como espaço de mobilização política a poucas semanas das eleições presidenciais.
Ígor Lopes