Guiné-Bissau: Braima Camará prepara-se para liderar o quarto Governo de Sissoco Embaló

A instabilidade política na Guiné-Bissau volta a reacender-se com a iminente queda do Governo liderado por Rui Duarte de Barros, em funções desde Dezembro de 2023. A sua substituição, alegadamente motivada por tensões internas e disputas partidárias, abre caminho para o regresso de Braima Camará ao centro do poder, agora na qualidade de provável futuro Primeiro-ministro, naquele que será o quarto Executivo nomeado por Umaro Sissoco Embaló em cinco anos de presidência.

Segundo fontes próximas do processo, a nomeação poderá ser oficializada entre os dias 5 e 6 de Agosto, marcando um novo capítulo numa governação marcada por alianças voláteis e múltiplas remodelações. A escolha de Braima Camará, coordenador de uma das alas do MADEM-G15, representa também um revés para antigos aliados do Presidente que se haviam afastado para formar a Aliança Patriótica Inclusiva (API – Cabaz Garandi), um movimento crítico ao regime.

Ausente do país desde Abril, Braima Camará aterrou em Bissau no sábado, 2 de Agosto, afirmando que regressava para “responder à convocatória do Presidente da República para o diálogo inclusivo em curso”. À imprensa, disse que o Chefe de Estado já reunira com Nuno Nabian, ex-Primeiro-ministro e líder da APU, e com Fernando Dias, presidente de uma das facções do PRS.

“Como sabem, eu pertenço a uma família política denominada API – Cabaz Garandi. Estamos num diálogo inclusivo com o Presidente da República. O presidente da API, Nuno Nabian, e Fernando Dias já foram ouvidos, e eu vim responder à convocatória do Presidente da República para o mesmo objectivo”, afirmou.

A revelação surpreendeu muitos, devido aos confrontos verbais e políticos que marcaram o último ano entre Braima Camará e Sissoco Embaló. Em 2024, Nabian, durante uma longa conferência de imprensa após sair de um ritual tradicional, classificara o Presidente de “terrorista, traficante de droga e alguém que não costuma dizer a verdade”. Sissoco respondeu considerando Nabian de “coitado e incompetente”, e acusando-o de ter beneficiado da sua generosidade sem apresentar resultados durante os três anos que ocupou o cargo de Primeiro-ministro.

O regresso de Braima Camará à esfera presidencial surge também após um período de grande tensão interna no MADEM-G15. O partido fragmentou-se em duas alas, na sequência de um Congresso extraordinário promovido por Sissoco, à margem dos estatutos, para fragilizar a liderança de Camará. Este não poupou palavras, acusando o Presidente de traição e ingratidão.

“Fui eu que falei com Nuno Nabian, com Carlos Gomes Jr., com José Mário Vaz. Falei com todos os que apoiaram o projecto Sissoco Embaló. […] Quando estes seus acólitos actuais eram contra, fui o único que o abracei e disse que era meu candidato. É este o pagamento que tem para mim? Deixo-o com Deus”, afirmou num encontro com dirigentes da sua ala.

Em plena crise, Camará chegou mesmo a declarar, “Sissoco é muito pequenino para meter a Guiné-Bissau no bolso.”

Apesar da ruptura, e dos ataques verbais, as movimentações recentes mostram uma reaproximação. A questão da liderança do MADEM-G15, no entanto, mantém-se juridicamente delicada.

Paralelamente ao cenário político, a Vara Crime do Comércio do Tribunal de Relações indeferiu o recurso interposto por Braima Camará que pretendia anular os efeitos do Congresso extraordinário que elegera Satú Camará como coordenadora do partido. O Tribunal justificou a decisão com a “inexistência de dano apreciável” nos actos praticados durante o Congresso, o que consolida, por ora, a posição da nova líder.

Ainda assim, a ala de Braima Camará pode recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça. No entanto, o próprio Camará relativizou o assunto, afirmando aos jornalistas que “Neste momento, a minha prioridade é a reconciliação da família MADEM. Este partido foi criado para servir de alternativa e tenho muita responsabilidade sobre o seu futuro. Não posso permitir que um partido pelo qual morreu muita gente seja destruído por uma crise interna. A questão do Acórdão será tratada.”

Questionado sobre a possibilidade de liderar o Governo, Braima Camará esquivou-se, dizendo que essa decisão cabe ao Presidente da República, acrescentando que “como patriota”, está “disponível para ajudar em qualquer função para o desenvolvimento da Guiné-Bissau.”

Caso se confirme a sua nomeação, Braima Camará sucederá a Rui Duarte de Barros, tornando-se o quarto Primeiro-ministro de Sissoco Embaló. A sequência começou com Nuno Nabian (2020–2023), seguiu com Geraldo Martins (Agosto-Dezembro de 2023), depois Rui de Barros (Dezembro de 2023 – Agosto de 2025), e agora, ao que tudo indica, Braima Camará assumirá a chefia de um Governo de iniciativa presidencial.

O retorno de Braima Camará marca, simultaneamente, uma vitória táctica de Sissoco Embaló, que consegue reintegrar antigos adversários numa nova frente governativa, e uma derrota simbólica para os que procuraram construir alternativas fora do seu círculo de influência.

One Comment

  1. Emanuel Sidónio da Silva Intomba

    Muito obrigado pela informação

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