Guiné-Bissau: Engenheiro agrónomo critica dependência do caju e propõe soluções

O engenheiro agrónomo e ativista de direitos humanos Bafodé Cassamá defendeu que a agricultura da Guiné-Bissau continua presa a velhos entraves. Ainda de acordo com o próprio, só com crédito acessível, diversificação de culturas e formação técnica o setor vai deixar de sobreviver à base de improviso.

“Sem crédito e estradas, o campo guineense continua condenado à pobreza”, declarou.

Formado pela Universidade Livre de Bissau, Cassamá indicou as hortaliças, o arroz e a castanha de caju como as três culturas com maior potencial para transformar a economia do país nos próximos cinco anos.

“Porque essas, para além de representarem significativamente a base alimentar dos guineenses, também geram grande escala económica no dia a dia”, esclareceu.

Obstáculo para o produtor

Quando questionado sobre o que mais trava o produtor, o engenheiro agrónomo foi direto e disse que era o acesso ao crédito.

“O maior entrave é o acesso ao crédito. O Estado deve promover parcerias institucionais com as instituições bancárias e o Banco Mundial para garantir a disponibilidade de crédito financeiro aos produtores agrícolas nacionais, através do financiamento de pequenos projetos de mudança”, defendeu.

Bafodé Cassamá considera que, sem dinheiro para sementes melhoradas, irrigação e escoamento, qualquer política agrícola fica no papel.

Clima e técnica: fazer mais com menos

Quanto às chuvas cada vez mais irregulares, o agrónomo recomenda técnicas de baixo custo, que passam pela diversificação de culturas, consórcio adequado, manejo integrado de pragas e doenças e rotação de culturas.

“A agricultura extensiva é a que garante a subsistência alimentar aos agricultores familiares. Os técnicos devem promover práticas agrícolas sustentáveis adaptadas à região, conforme as necessidades exigentes perante a insuficiência da chuva”, explicou.

Acabar com a dependência do caju

Com o caju a representar cerca de 90% das exportações agrícolas, o entrevistado alertou para o risco da monocultura. A saída, disse, é produzir, transformar e comercializar outras culturas na mesma escala, como manga, limão, batata, feijão, amendoim e mandioca.

“Sem matar a renda que o produtor já tem com o caju, defendo a reestruturação dos pomares de caju. É preciso respeito às regras e às políticas públicas voltadas à produção de caju para melhor permitir a inserção de outras culturas em consórcio”, propôs.

Jovens só voltam com formação e dinheiro

Para atrair os jovens de volta ao campo, o engenheiro aposta em centros de formação técnico-profissional agrícola, financiamento de pequenos projetos de agronegócio e na garantia de compra da produção.

“Em Bissau, desenvolve-se mais o agronegócio através de compra e venda de produtos agrícolas. E no interior funcionam mais cooperativas de hortaliças e agroprocessamento de frutas de manga, caju, maracujá e extração de óleo de palma”, destacou.

O que o Estado e parceiros precisam fazer

Cassamá listou quatro pilares de apoio, que são o material, com tratores e equipamentos; financeiro; infraestruturas, como indústrias de processamento; e apoio técnico com formação e capacitação dos técnicos de campo.

Projeto piloto: pecuária para baixar o preço da carne

“Primeiramente eu sugeriria a criação de gado com finalidades diferentes, tanto para produção de ovos como para a produção de carne. Com o objetivo geral de diminuir os preços e a escassez de carne de campo”, concluiu o engenheiro agrónomo.

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