Guiné-Bissau: Militares acusados de intimidação e envolvimento na campanha eleitoral

A campanha eleitoral para as eleições gerais de 23 de novembro está cada vez mais tensa e competitiva. Com foco crescente nas presidenciais, o processo ganhou esta semana um novo elemento, com a intimidação aos adversários do regime.

Numa decisão inesperada, o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) convocou uma reunião com anciãos balantas que, há uma semana, tinham ameaçado “ajustar contas” caso voltasse a ocorrer a detenção de um balanta.

Segundo a candidatura de Fernando Dias, este encontro foi “um disfarce de Biaguê Na Ntan” para pressionar opositores de Umaro Sissoco Embaló e, sobretudo, convencer os anciãos de que a detenção de Daba Naualna se deveu realmente a uma alegada tentativa de golpe de Estado.

Siga Batista, ex-candidato que desistiu a favor de Fernando Dias, divulgou um vídeo de dez minutos apelando ao CEMGFA que deixasse de se intrometer nos assuntos políticos. No vídeo, Batista coloca várias questões a Biaguê Na Ntan e conclui que ele está ostensivamente envolvido na campanha eleitoral por Umaro Sissoco Embaló.

Durante a reunião com os anciãos balantas, realizada em Cumeré, Biaguê Na Ntan apresentou cinco militares balantas detidos pela suposta tentativa de golpe de Estado, para confirmarem que teriam sido contactados por Daba Naualna. Siga Batista classificou o gesto como uma forma de “forçar uma verdade”, sublinhando que se trata apenas da “verdade dos que confessaram” e não de esclarecimentos resultantes de uma acareação séria entre os alegados envolvidos.

Batista condenou aquilo que qualificou de “vendetta pública dos supostos suspeitos” e questionou o CEMGFA sobre “por que razão” Daba Naualna não foi levado para explicar a sua própria versão dos factos.

“Compreendemos esta estratégia. Há uma determinação absoluta de convencer as pessoas de que houve uma tentativa real de golpe de Estado. Mas não é assim que se prova um golpe. Existem instâncias para isso, e não o que aconteceu”, criticou Batista.

Sem atacar diretamente o CEMGFA, Siga Batista afirmou que a candidatura de Fernando Dias luta para que Biaguê Na Ntan tenha “a tranquilidade necessária nesta fase da vida”. Acrescentou que, ao longo dos anos, o CEMGFA sempre alegou ter evitado golpes de Estado. “Vivemos seis anos com José Mário Vaz e só ouvimos falar disso num áudio vazado, com voz bem identificada”, numa referência à gravação atribuída a Umaro Sissoco Embaló. Batista concluiu que Biaguê Na Ntan “tem idade para cuidar dos netos” e não deveria ser envolvido em disputas políticas, “como o regime insiste em forçar”.

Sissoco Embaló acompanhado de militares em plena campanha

A presença de militares na campanha deixou de ser discreta e estão claramente envolvidos nas atividades políticas de Umaro Sissoco Embaló. A 16 de novembro, Dia das Forças Armadas, o Presidente apareceu acompanhado de dois altos oficiais, Horta Inta-a, Chefe do Estado-Maior do Exército, e Tomás Djassi, Chefe do Estado-Maior Particular do Presidente, uma função criada durante o atual regime. Embaló afirmou dirigir-se aos militares “através deles”. A data coincide, contudo, com o dia em que os militares votam. Circularam também rumores de que Mamadú Turé “N’Krumah” estaria a percorrer unidades militares apelando ao voto em Sissoco Embaló.

Dias acusa Sissoco de inventar golpes de Estado

A alegada tentativa de golpe de Estado que motivou a detenção de Daba Naualna voltou a ser tema de intervenção de Fernando Dias. No sul do país, o candidato afirmou que o Presidente cessante usa “golpes inventados” como instrumento político.

“À beira da campanha, disse que eu e Mário Fambé preparávamos um golpe. Depois virou para Domingos Simões Pereira, Geraldo e Agnelo. O adversário de Umaro Sissoco Embaló sou eu. Que pare de inventar. Ninguém quer dar golpe de Estado. Vamos vencer Sissoco Embaló nas urnas no dia 23 de novembro”, vincou Dias.

O sul é também a região natal de Tanu Bari, chefe da força especial de Sissoco Embaló, encontrado morto, em circunstâncias por esclarecer, no rio Mansoa, em João Landim. Fernando Dias afirma que o Presidente “deve explicações ao país”, sobretudo após o áudio que circulou de uma conversa entre o próprio Tanu Bari e o Chefe de Estado.

“É por estas razões que pedimos o voto do povo. Assim que vencermos, Sissoco Embaló deverá explicar todas estas mortes”, concluiu.

Do lado do Presidente, o discurso resume-se a acusações contra Domingos Simões Pereira, Geraldo Martins e Agnelo Regalla. Contudo, dos militares apresentados perante os anciãos balantas, nenhum referiu os nomes das figuras que Embaló promete deter no dia 24 de novembro caso seja reeleito.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Guiné-Bissau: Justiça pode decidir futuro político da liderança do MADEM-G15

O Secretariado Nacional do Movimento para Alternância Democrática...

0

Guiné-Bissau: PAIGC e Grupo de Reflexão alcançam entendimento para viabilizar Congresso

A direção do PAIGC e o denominado Grupo...

0

Guiné-Bissau: PAIGC prepara Congresso e reforça diálogo com Grupo Reflexão

A Comissão Permanente do PAIGC reuniu-se esta terça-feira,...

0