A Guiné-Bissau entrou esta quarta-feira, 26 de novembro de 2025, numa das suas mais graves crises político-militares. O dia começou com tiros nas imediações da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e terminou com a declaração pública de um grupo de oficiais que assumiu a “plenitude dos poderes do Estado”, dissolvendo todas as instituições republicanas e afastando do cargo o Presidente cessante, Umaro Sissoco Embaló.
O anúncio do golpe foi feito em direto na Televisão Pública, através de um comunicado lido pelo Brigadeiro-General Dinis N’Tchama, sobrinho do atual Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, General Biagué Na Ntan, facto que reacende suspeitas sobre divisões internas no topo da hierarquia militar e sobre o real alinhamento das chefias.
Segundo o comunicado, a intervenção armada foi desencadeada após a descoberta de um alegado plano de desestabilização nacional, envolvendo figuras políticas, um “barão de droga” e tentativas de manipulação dos resultados eleitorais. O grupo afirmou ter encontrado um depósito de armamento de guerra e decidiu suspender imediatamente o processo eleitoral.
O Alto Comando Militar decretou encerramento total das instituições do Estado, bloqueio dos meios de comunicação social, encerramento das fronteiras terrestres, marítimas e aéreas, além de impor um recolher obrigatório das 19h às 6h “até ao restabelecimento da ordem constitucional”.
Sissoco confirma detenção
O próprio Umaro Sissoco Embaló confirmou à revista francesa Jeune Afrique a sua detenção, afirmando ter sido levado por militares ao meio-dia, quando se encontrava no Palácio Presidencial.
Sissoco insistiu que teria vencido as eleições com 65% dos votos, “pelo meu próprio apuramento”, e acusou o Exército de consumar um golpe de Estado conduzido pelo Chefe do Estado-Maior do Exército.
Fontes locais relataram disparos perto do palácio e da Comissão nacional de Eleiçõe (CNE). Para além do Presidente cessante, foram igualmente detidos Biagué Na Ntan, Mamadu Turé (vice-CEMGFA) e Botché Candé (ministro do Interior).
As tensões adensaram-se depois de ambas as candidaturas, de Sissoco Embaló e Fernando Dias, apoiado pelo PAIGC e por DSP, terem reivindicado vitória antes dos resultados oficiais previstos para o dia 27.
Fernando Dias e DSP em fuga, após ataque armado
Pouco antes que a liderança militar anunciava a tomada do poder, grupos armados invadiram a sede da campanha de Fernando Dias, onde o candidato reunia com missões internacionais de observação eleitoral.
Entre os presentes encontrava-se Domingos Simões Pereira (DSP), líder do PAIGC e principal aliado político de Dias.
Segundo relatos recolhidos em Bissau, os homens armados ameaçaram lançar gás lacrimogéneo e ordenaram que os dirigentes fossem entregues. A sede foi evacuada às pressas, levando a comitiva a refugiar-se numa localização mantida em sigilo, mas que, mesmo assim, foi rapidamente descoberta pelos atacantes.
No entanto, até à conclusão deste artigo, Dias, DSP e os seus colaboradores permaneciam em segurança, não tendo sido capturados pelo Alto Comando Militar.
Minutos antes da invasão, representantes de diversas missões internacionais, incluindo chefias da CEDEAO, da União Africana e líderes africanos convidados como Filipe Nyusi, Jonathan Goodluck e Ibn Chambas, estavam reunidos com a candidatura de Fernando Dias para comunicarem as conclusões preliminares das observações e os resultados compilados.
Assim que souberam dos disparos no centro de Bissau, os observadores deixaram a reunião para verificar a situação no terreno, pouco antes do ataque à sede de campanha.