Guerra no Médio Oriente: “Provavelmente, nas próximas semanas, veremos um mercado bastante volátil e apreensivo”

Guerras, tensões geopolíticas e disputas comerciais estão a alterar de forma significativa o ambiente de internacionalização das empresas. Num cenário global marcado por instabilidade e mudanças nas cadeias de valor, os negócios que atuam além-fronteiras precisam lidar cada vez mais com riscos logísticos, incertezas regulatórias e maior volatilidade nos mercados.

Em entrevista à e-Global, Lisandro Vieira, CEO da WTM, explica, desde o Dubai, que o novo contexto internacional tem levado empresas a incorporar análises geopolíticas aos seus processos de decisão. Segundo este executivo, acompanhar tensões internacionais, sanções, negociações comerciais e disputas tecnológicas passou a ser parte essencial da estratégia de expansão global.

A partir do Dubai, um dos principais hubs globais de negócios e porta de entrada para mercados da Europa, Ásia e Médio Oriente, Lisandro Vieira também analisa como as empresas brasileiras estão a adaptar as suas estratégias de internacionalização, reforçando a diversificação de mercados, a resiliência operacional e a capacidade de resposta rápida a mudanças no cenário internacional, como a guerra no Médio Oriente.

De que forma os atuais conflitos e tensões no Médio Oriente têm impactado, na prática, as operações de importação e exportação de serviços e tecnologia conduzidas por empresas brasileiras no exterior?

Com relação a esse “fator Brasil” que vocês mencionam, acho que é um ponto muito importante de destacar. O empreendedor brasileiro costuma ser visto no exterior como alguém extremamente criativo, inovador e com grande capacidade de adaptação – seja para ajustar o próprio negócio, seja para desenvolver soluções que atendam às necessidades específicas de cada cliente. Como sempre comentamos, o Brasil é um país bastante desafiador para empreender. Por isso, quando uma empresa consegue estruturar e escalar seu negócio aqui, ela acaba desenvolvendo competências importantes que também a preparam para expandir com segurança e eficiência para outros mercados. Ao longo dos últimos anos, o que temos buscado fazer é justamente mostrar às empresas que o processo de internacionalização está ao alcance delas. Claro que exige planeamento estratégico, estudo e, muitas vezes, investimento – seja em tempo, recursos financeiros ou capital humano. Mas é um caminho possível para grande parte das empresas, especialmente aquelas dos setores de serviços e tecnologia. O nosso objetivo, portanto, é apoiar outros negócios brasileiros a darem esse passo e se tornarem empresas com atuação internacional.

Dubai consolidou-se como um hub estratégico de negócios entre Europa, Ásia e Médio Oriente. Que fatores têm levado empresas brasileiras a utilizar este mercado como plataforma para internacionalização em meio ao atual cenário geopolítico?

Tanto Dubai como Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, posicionaram-se estrategicamente para oferecer um ambiente muito favorável aos negócios. Em primeiro lugar, há uma forte segurança jurídica, já que algumas jurisdições locais são baseadas no sistema de common law, o que traz mais previsibilidade e confiança para empresas e investidores. Além disso, existe um cenário tributário bastante competitivo, com uma postura do Estado mais voltada a estimular o desenvolvimento dos negócios do que simplesmente ampliar a arrecadação.

Outro ponto relevante é a qualidade de vida. Dubai, por exemplo, oferece uma grande diversidade de opções de moradia, gastronomia, entretenimento e serviços, capazes de atender pessoas de diferentes perfis e nacionalidades. É possível encontrar culinária de praticamente todas as partes do mundo, diferentes faixas de preço e estilos de vida variados, o que faz com que profissionais e empreendedores de vários países se sintam acolhidos. Esse conjunto de fatores – segurança jurídica, ambiente tributário atrativo, qualidade de vida e um sistema financeiro bem conectado internacionalmente – acabou criando um ecossistema muito dinâmico. Embora o Brasil tenha avanços importantes em alguns aspetos do sistema financeiro interno, os Emirados se destacam pela facilidade de conexão com o resto do mundo e pela conversibilidade de moedas. Como resultado, mais de 90% da população do Dubai é formada por estrangeiros, o que transforma a cidade em um verdadeiro hub global. A localização também contribui: o emirado está a cerca de oito horas de voo de dois terços da população mundial, o que facilita muito a conexão com mercados da Europa, Ásia e África. Tudo isso ajuda a explicar por que a região se consolidou como um importante centro internacional de negócios e inovação.

Em termos de contratos, logística digital e fluxos financeiros internacionais, que mudanças têm sido observadas desde o início das recentes tensões na região?

Alguns contratos, inclusive nas áreas de abastecimento e defesa, acabaram sendo acelerados ou intensificados nesse contexto. No entanto, há impactos evidentes na logística, principalmente porque boa parte dos aeroportos da região foi afetada e chegou a interromper operações. Desde ontem, porém, alguns voos já começaram a ser retomados. As rotas para cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, voltaram gradualmente à normalidade, com pousos e decolagens sendo realizados novamente. Ainda assim, o cenário segue com impactos relevantes tanto no transporte aéreo quanto no marítimo. Isso ocorre também por causa das restrições no Estreito de Hormuz, onde diversas companhias marítimas globais decidiram evitar a passagem de seus navios por questões de segurança, diante do risco de ataques ou apreensões por forças iranianas. Essa situação acaba afetando a logística internacional e, consequentemente, pode gerar reflexos nos fluxos comerciais e financeiros. Apesar disso, a expetativa predominante na região é de que o cenário seja temporário.

Tem havido uma reorganização de investimentos ou redirecionamento de rotas comerciais por parte das empresas que atuam com tecnologia e serviços internacionais? Que exemplos práticos pode partilhar a partir da experiência da WTM?

Ainda é cedo para falar em uma reorganização ou redirecionamento mais amplo de investimentos e rotas comerciais, porque o conflito ainda está em andamento. No entanto, a perceção de empresários brasileiros que estavam ou ainda estão nos Emirados é de que a capacidade de defesa demonstrada pelo país acabou reforçando a confiança no ambiente local. Mesmo em meio ao momento de tensão, o país segue operando com relativa normalidade. O metro, os comboios e o transporte público continuam funcionando, as pessoas seguem circulando e as atividades económicas permanecem ativas dentro do possível. Na prática, até agora não houve casos de clientes que tenham cogitado desistir de investir ou fazer negócios na região.

Olhando para 2026, quais serão os principais critérios estratégicos que empresas brasileiras devem considerar ao expandir operações globais de tecnologia e serviços num ambiente marcado por conflitos e incertezas geopolíticas?

Acredito que, em 2026, as empresas que desejam expandir as suas operações – especialmente nos setores de tecnologia e serviços – precisarão adotar uma visão muito mais estratégica em relação a risco e resiliência. Um dos critérios que certamente deve entrar no radar é a diversificação geográfica, tanto de mercados quanto de infraestrutura. Outro ponto fundamental será a capacidade de antecipar riscos geopolíticos. Cada vez mais empresas estão incorporando análises geopolíticas aos seus processos de decisão, acompanhando tensões internacionais, negociações comerciais, sanções, mudanças regulatórias e até disputas tecnológicas. Por fim, um fator decisivo será a flexibilidade organizacional e a velocidade de adaptação.

O que espera do mercado global nas próximas semanas?

Provavelmente, nas próximas semanas, veremos um mercado bastante volátil e apreensivo, reagindo e tentando precificar não apenas os acontecimentos atuais, mas também os possíveis desdobramentos do cenário geopolítico. Isso tende a provocar oscilações relevantes, possivelmente até históricas, em ativos como petróleo, commodities, metais preciosos, mercados financeiros e criptoativos. Diante desse ambiente de incerteza, é natural que o mercado atravesse um período de maior tensão. Ao mesmo tempo, momentos como esse costumam trazer não apenas desafios, mas também grandes oportunidades. Afinal, como diz o ditado, “mar calmo não faz bom marinheiro”, e muitas das melhores oportunidades aparecem justamente em cenários de transformação.

Ígor Lopes

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