A produção de ópio no Afeganistão aumentou cerca de 400% em 2026, atingindo quase 1.500 toneladas, face às aproximadamente 300 toneladas registadas no ano anterior, segundo um levantamento divulgado a 29 de outubro pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A área dedicada ao cultivo da papoila do ópio cresceu 330%, ultrapassando os 43 mil hectares, num aumento que representa a primeira subida significativa desde a proibição imposta pelos talibãs em 2022.
Apesar da recuperação, os valores permanecem muito abaixo dos níveis anteriores à proibição, quando cerca de 232 mil hectares eram utilizados para o cultivo. Antes dessa medida, o Afeganistão era responsável por aproximadamente 80% da oferta mundial de ópio ilícito. O regime talibã, que chegou ao poder em agosto de 2021, proibiu o cultivo da papoila e os narcóticos em abril de 2022, invocando razões religiosas.
O UNODC considera que muitos agricultores estão a encontrar formas de contornar a fiscalização, escondendo pequenas plantações no meio de campos de cereais ou dentro de terrenos murados. Outros optam por escalonar as sementeiras e as colheitas para dificultar a sua deteção. Embora as autoridades de facto afirmem ter erradicado 22 mil hectares de papoila este ano, a agência das Nações Unidas alerta para as dificuldades em manter a redução do cultivo quando as famílias rurais não dispõem de alternativas económicas.
O cultivo estendeu-se a 16 das 34 províncias afegãs, mais cinco do que em 2025, concentrando-se sobretudo no nordeste, que representa cerca de três quartos da área plantada. Os preços do ópio desceram de 570 dólares por quilograma no ano passado para 500 dólares, mas continuam muito acima dos valores anteriores à proibição, inferiores a 100 dólares. Segundo o UNODC, estas diferenças de preços entre regiões poderão incentivar o tráfico dentro do país.
A agência indica ainda que os traficantes terão recorrido às reservas acumuladas para manter o abastecimento desde a entrada em vigor da proibição, mas os dados recentes sobre apreensões sugerem que esses stocks estão a diminuir. A redução da oferta de heroína na Europa poderá também contribuir para novas pressões sobre o mercado. A directora executiva do UNODC, Monica Juma, defende uma maior cooperação internacional para desmantelar redes transnacionais de tráfico e investimentos nos meios de subsistência, nas infraestruturas agrícolas e no acesso aos mercados, sublinhando que a monitorização futura permitirá perceber se o aumento de 2026 é temporário ou marca o início de uma nova expansão da produção.