Com duração de 34 minutos, a ficção “As Aventuras de Angosat” destaca-se por ser a primeira produção audiovisual do género musical a ser realizada na República de Angola.
O filme, idealizado a partir de uma peça de teatro, estreará às 19h, em Portugal, no próximo dia 7 de junho, no “Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTin)”, realizado anualmente em Lisboa, com o objetivo de “fomentar a difusão, a interculturalidade, a inclusão social e o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa”.
O musical, realizado em colaboração com a Anim’art, foi inspirado no AngoSat-1, o primeiro satélite artificial lançado em 2017 por Angola e construído por um consórcio estatal russo e que se perdeu e assim não teve mais conexão com a base de controlo.
“Lançar o satélite Angosat foi um sonho, e este musical independente é o recontar desse sonho”, revelou Resem Verkron, um dos diretores do filme.
O acontecimento levou Isis Hembe (1987) a criar a história, sendo também autor da música e o ator principal, que interpreta Man Ré, o único personagem com nome, “um jovem angolano que sonha viajar pelo espaço sideral”, quando percebe que está sozinho.
O elenco do filme é composto por pessoas com deficiência física. Hembe, por exemplo, usa cadeira de rodas desde criança, após contrair poliomielite. Ele “não pode receber o tratamento adequado por causa da guerra civil de Angola (1975–2002), uma das mais brutais do século passado”.
“O filme mostra um mundo onde a diversidade é tida em conta, como um recurso a ser aproveitado. Angola, que é também composta por essa diversidade”, destacou Hembe.
Um dos nomes com aparições destacadas no filme é o dançarino urbano Scott Suave, do bairro de Cazenga. Apesar de ter apenas um braço e uma perna após um acidente, ele continua a dançar, inclusive com apresentações nas redes sociais.
“Tenho forças para continuar (…). Dançando, sei como quero ajudar a minha mulher e meu filho”, afirmou.
Hembe acrescentou que “o filme menciona a guerra, mas não é o foco. Também não nos queremos focar nas coisas que não podemos fazer individualmente, mas nas coisas que podemos, como criar este musical com estas pessoas maravilhosas, todos artistas promissores em ascensão”.
O filme, realizado nas ruas do Cazenga, em Luanda, capital de Angola, e feito num único plano, destaca-se pelas línguas utilizadas, como o português, o calão, o umbundu e a Língua Gestual Angolana, esta empregada pelos atores Celeste Wacalenda e Domingos Malebo.
“É uma ópera hip-hop”, frisou Isis, “sobretudo” com “batidas urbanas misturadas com kisanji, um instrumento tradicional”, contou o rapper, poeta e ativista dos direitos humanos, considerado “uma das vozes mais expressivas do Mudei”, um movimento cívico fundado em 2021 em Angola.
“É um filme, mas tem a frescura do teatro. Onde nem tudo é perfeito e os erros são permitidos”, fez questão de explicar Hembe, cuja trajetória musical inclui os álbuns “Prazer, Isis Hembe” (2020), “O Escrivão Solar” (2021) e os EPs: “Quintessência” (2023) e “O Insólito Caso do Pássaro Metálico” (2023).
Uma das canções presentes na película é “a versão do popular Umbi-umbi, em Umbundu, a língua autóctone mais falada em Angola”.
“As Aventuras de Angosat” foi dirigido por Marc Serena (1983) e Resem Verkron (1999), dois realizadores reconhecidos no meio cinematográfico de Angola devido aos prémios conquistados.
Resem Verkron (1999), por exemplo, que costuma definir o seu trabalho como “afrofuturismo emocional”, como resposta ao afrofuturismo negro americano, e ativo integrante de movimentos culturais em Luanda, lançou em 2021 o curta-metragem “Lola & Mami”, com temática sobre a “masculinidade tóxica”.
Com 13 prémios conquistados em festivais, incluindo o Outfest Los Angeles (EUA), Marc Serena (1983), que também é escritor, correalizou o premiado documentário “Tchindas” (2015), nomeado para os Óscares africanos na Nigéria (AMAA Awards) e foi transmitido pela PBS (EUA). O seu recente filme, “O escritor de um país sem livrarias”, foi premiado na Itália, nos DIG Awards, na categoria jornalismo de investigação, e transmitido pela RTP2.
“As Aventuras do Angosat” teve a sua estreia mundial no “Maysles Documentary Center (MDC)”, fundado pelo cineasta Albert Maysles (1926–2015) em 2005 no Harlem, em Nova Iorque, considerado “o único cinema independente ao norte do Lincoln Center dedicado exclusivamente à programação de documentários”.
A estreia em Angola será na sexta-feira, 20 de junho, no “Festival Já Era”. A sessão gratuita será no Cine São Paulo, um dos maiores cinemas da cidade, reaberto no ano passado pelo Instituto Goethe de Angola.
Os realizadores disseram que “são esperadas cerca de mil pessoas”.
O trailer do filme pode ser visto em: https://vimeo.com/1037744995/890eb72463
Ígor Lopes