Inundações e enchentes devastadoras no Brasil também afetam diáspora libanesa

O sul do Brasil tem sido atingido, desde o dia 27 de abril, por inundações catastróficas, as piores no país em mais de 80 anos, e as autoridades contam, até ao momento com, pelo menos, 100 mortes confirmadas, centenas de feridos e inúmeros civis desaparecidos. As enchentes foram causadas por tempestades torrenciais que duraram vários dias e afetaram, em particular, o estado do Rio Grande do Sul, na região sul do país. Grande parte do território está agora transformado numa zona de desastre, com centenas de milhares de pessoas sem casa e em situação-limite com escassez de acesso a alimentos, eletricidade e água potável (cerca de 80% da população da cidade de Porto Alegre não tem água canalizada há uma semana).

Entretanto, o governo brasileiro tem executado medidas para resolver esta catástrofe ao enviar contingentes de militares e oficiais da Defesa Civil com o intuito de encontrar e resgatar vítimas e de temporariamente colocá-las em lugares seguros.

Esta calamidade também tem afetado membros da diáspora libanesa no Brasil, a mais numerosa no mundo, com cerca de 10 milhões de pessoas. A e-Global contactou alguns membros da comunidade libanesa para fazer o ponto da situação.

“Quase todas as cidades foram atingidas, em maior ou menor grau”

Paulo Jorge Sarkis, 79 anos, professor universitário titular aposentado e engenheiro civil em atividade, detalhou a situação calamitosa. “Na cidade onde estou, Santa Maria, não temos inundações na zona urbana. Estamos praticamente isolados por terra. Tivemos uma única morte por deslizamento de encosta de morro. Temos eletricidade praticamente normal. A água está racionada por zonas, pois algumas adutoras que trazem água da barragem para a estação de tratamento romperam-se com as enxurradas.”

Paulo Jorge Sarkis conta que “o nível dos rios subiu muito rapidamente em todo o estado. Quase todas as cidades foram atingidas, em maior ou menor grau. Pontes, estradas, barragens e moradias em encostas de morros foram destruídas, ocasionando várias mortes. Oficialmente estávamos com, aproximadamente, 90 mortes e mais de 100 desaparecidos. Mas esses números tendem a aumentar quando as comunicações se começarem a restabelecer. As situações dramáticas repetem-se por todo o estado. Pessoas ilhadas, às vezes no telhado das casas vários dias, sem comida, sem água potável e sem medicamentos.”

Os casos dramáticos sucedem-se e o professor universitário libanês relata o caso de “um médico de um hospital da cidade de Canoas, próxima de Porto Alegre, que foi praticamente varrida do mapa, implorando por transporte para os doentes da UTI. Não foi atendido e perdeu todos os seus pacientes de UTI. É dramático ouvir a sua conversa com um Ministro do Governo Federal. O socorro emergencial das autoridades de governo foi pífio. Empresas privadas e muitos voluntários colocaram mais helicópteros e barcos nos resgates do que os governos.”

Sarkis, cujo pai nasceu na zona de Jounieh, no Líbano, e mais tarde emigrou para o Brasil, acrescentou ainda que “a capital do estado, Porto Alegre, está numa situação caótica. O aeroporto encontra-se inundado e fora de operação até o final do mês. Muita destruição. Museus do Centro Histórico inundados. Economicamente, as consequências são inimagináveis. A zona rural foi destroçada. Animais morreram. Plantações foram destruídas. Há muitas estradas e pontes para serem reconstruidas. Esse levantamento só poderá ser feito nos próximos dias. Ainda estamos na etapa de resgatar vítimas. E está previsto o retorno das chuvas. Tivemos apenas três dias de calmaria.”

“Estamos num cenário de guerra”

As previsões meteorológicas para os próximos dias estão longe de serem encorajadoras. Jamil Haddad, 26 anos, professor de línguas e residente em Porto Alegre, tem estado atento à escalada da crise na região e referiu que, na quarta-feira, aguardava-se um temporal com 120mm de chuvas (que só cessarão na próxima segunda-feira).

“A situação está bastante caótica. Há muitos membros da nossa diáspora libanesa em zonas como Pelotas e Lagoas dos Patos, onde as inundações se vão acumulando. Muita gente já perdeu os seus comércios. A cidade de Canoas (onde vive uma comunidade palestina numerosa) está totalmente ‘mergulhada’; as águas chegaram ao segundo piso e há muitos residentes que ficaram isolados. De momento, encontro-me numa zona segura de alagamento, mas a água acabou e estamos sem energia elétrica. Estamos numa espécie de cenário de guerra. São camiões, autocarros, exército, polícia, defesa civil, helicópteros, sons de sirene o tempo todo. É um caos!”, descreve Jamil Haddad.

Apesar dos esforços do governo e das autoridades municipais para lidar com esta crise ambiental e humanitária, muitos brasileiros têm-se mostrado críticos em relação à falta de responsabilidade e ética por parte dos representantes políticos na região.

Neil Naiff, ativista social e ambiental, estudante e morador de Eldorado do Sul, que viu a sua cidade ficar submersa, salientou que é preciso continuar a “exigir um código ambiental mais firme e atualizado aos novo impactos ambientais que estamos vivendo e também exigindo um auxílio ao qual serviria de ponto de partida para o recomeço de milhares de famílias. Infelizmente, o auxílio foi parcialmente doado à sociedade civil e o mesmo governador,

Eduardo leite, flexibilizou ainda mais o código ambiental do estado, apresentando um prejuízo para muitos trabalhadores e trabalhadoras que estão a recomeçar do zero e para os gaúchos em geral que estão a ser diretamente afetados pelas mudanças climáticas na nossa região. Hoje, Eldorado do Sul e grande parte da região metropolitana da capital encontram-se debaixo de água.

Naiff indicou que esteve, entre as 19h30 de terça-feira a as 20h00 de sexta-feira da semana passada, a auxiliar no transporte e resgate de pessoas e animais.

“Foram 4 dias intensos tentando salvar o máximo de vidas. Infelizmente o contexto hoje em Eldorado do Sul é fome e falta de água potável para as famílias que estão evacuadas nos respetivos telhados. Entretanto, depois de fugir das enchentes, acabei por ter de ir até à cidade vizinha para resgatar o meu filho de 1 ano. Na manhã seguinte, o bairro ficou submerso”, descreveu a ativista social e ambiental que vive no Eldorado do Sul.

População afetada pede mais ajuda e critica políticas

A população, que perdeu tudo na tragédia, pede mais ajuda e critica a estratégia política das autoridades. “Não sabemos quanto tempo podemos ficar na cidade; os mercados estão fechando, sem produtos, não temos gasolina em toda a Costa Doce e está prevista mais chuva. Entretanto, o governador Eduardo Leite não apresenta um resultado imediato do que precisamos. O Governo Federal tem enviado apoio, porém precisamos de muito mais ajuda. E necessitamos de justiça climática, justiça para nós trabalhadores que perdemos tudo e a todos que tiverem parentes e amigos a vida ceifada pelas consequências de uma política negacionista, uma política liberal ao qual em nenhum momento nos alertou enquanto cidadãos”, afirma Neil Naiff.

Esta análise é corroborada por Khalil El Ajouz, 20 anos, estudante universitário de Relações Internacionais, descendente de libaneses da região de Akkar (que ainda este ano foi severamente afetada por cheias devastadoras). Segundo Khalil, “durante anos, assistimos a desastres ambientais destes através dos media, pensando que nunca seríamos afetados devido às dimensões vastas do nosso espaço geográfico. Contudo, agora estamos a viver as consequências da exploração ambiental pelas empresas privadas milionárias e mudança climática. Eles deixam a população sentir na pele a impotência e pagar com suas vidas. Até mesmo o governo mostra a sua impotência diante do ‘limite de poder’, sobre as ações dentro do próprio país.”

“Eu não sou cego e sinto-me doente ao ver as pessoas perderem o que talvez levaram uma vida para conseguir — além da própria vida”, desabafa o jovem Khalil El Ajouz.

O estudante universitário deixa um alerta para as futuras gerações. “Viver uma juventude no Brasil, em breve, fará com que o pensamento das novas gerações seja mais revoltante do que já é. Bolsonaro criou uma legião de negacionistas no Brasil, em tudo que é possível e todos nós sofremos com este fenómeno. Bolsonaro abriu um precedente para as empresas privadas fazerem todas essas loucuras neste país. O Brasil precisa muito de ajuda para as pessoas abrirem os olhos. Somos o país da Amazónia, onde as pessoas passam falta de recursos e água com frequência.”

Independentemente das estratégias ambientais que o governo brasileiro possa implementar no futuro, para já, a prioridade está concentrada em resgatar o maior número possível de civis e de encontrar contingências de emergência para os próximos dias de chuvas torrenciais que continuarão a afetar milhões de brasileiros.

João Sousa

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