O aquecimento global está a acelerar a um ritmo sem precedentes nos registos modernos de temperatura, com a Terra a aquecer cerca de 0,35 °C por década nos últimos dez anos. A taxa representa quase o dobro da média de aproximadamente 0,2 °C por década registada entre 1970 e 2015, segundo um estudo do Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático (PIK), publicado a 29 de Outubro na revista científica Geophysical Research Letters.
A investigação apresenta evidências estatísticas de que a aceleração começou por volta de 2015, mesmo depois de os cientistas terem descontado factores naturais que influenciam temporariamente as temperaturas globais, como o fenómeno El Niño, as erupções vulcânicas e as variações da actividade solar. A conclusão foi obtida com um nível de confiança estatística superior a 98%, de acordo com os autores.
Para chegar a estes resultados, a equipa analisou cinco grandes bases de dados de temperatura global, desenvolvidas pela NASA, NOAA, HadCRUT, Berkeley Earth e ERA5. Os investigadores aplicaram diferentes métodos estatísticos para separar as flutuações naturais da tendência de aquecimento a longo prazo. As várias abordagens apresentaram resultados consistentes, reforçando a conclusão de que a velocidade do aquecimento aumentou.
A análise também concluiu que 2023 e 2024 continuaram a ser os anos mais quentes desde o início dos registos instrumentais, mesmo depois de corrigidos os efeitos de factores naturais que contribuíram para as temperaturas excepcionalmente elevadas. Os investigadores identificaram ainda sinais de aceleração em alguns conjuntos de dados desde 2013 ou 2014. Contudo, o estudo não procurou determinar as causas físicas exactas desta mudança, embora os resultados sejam compatíveis com o comportamento previsto pelos actuais modelos climáticos.
O principal autor do estudo, Stefan Rahmstorf, alerta que, caso a taxa de aquecimento da última década se mantenha, o planeta poderá ultrapassar o limite de 1,5 °C do Acordo de Paris, em termos de aquecimento sustentado, antes de 2030. O investigador sublinha, porém, que a evolução futura depende da rapidez com que as emissões globais de dióxido de carbono provenientes dos combustíveis fósseis forem reduzidas. O limite de 1,5 °C não diz respeito a um único ano excepcionalmente quente, mas à temperatura média global a longo prazo.